Exibida entre 1983 a 1985, e produzida por Lou Scheimer para a Mattel, He-Man é ambientada na fictícia cidade de Eternia, onde o Príncipe Adam e sua família vivem e governam aquele país. Na TV, a série animação de duas temporadas é composta de 130 episódios originais que depois vão se desenrolando com derivados e outras histórias que se inspiram na ideia original. Além de He-Man, também se consolidaram outros personagens como a heroína She-Ra, a vilã Maligna e o grande vilão Esqueleto. Mas, o clássico desenho conquistou o público com outro personagem que se destacou por seu carisma e senso cômico: o bruxinho Gorpo.
No novo live-action, curiosamente o protagonismo do herói de Eternia é vivido por Nicholas Galitzine. Junto dele temos Camila Mendes, Morena Baccarin, Idris Elba, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Alison Brie, Sam C. Wilson, Kojo Attah e Hafthor Bjornsson. Jared Leto faz as vezes do vilão Esqueleto. O novo reboot consegue apresentar uma nova reinterpretação a fim de conquistar uma geração que não conheceu os Mestres do Universo e o mundo de Eternia. E consegue muito bem. A curiosa escolha dos atores até certo ponto acerta, mesmo provocando certos rumores e uma sensação de desconfiança. Contudo, os primeiros minutos do filme, que é dirigido por Travis Knight já nos convence e nos mantém vidrados diante da tela.
Vamos começar pelas mulheres. Boas atuações femininas a começar por Teela (Mendes) e Maligna (Brie). Enquanto a primeira é a sensata, a amiga fiel e uma boa lutadora, a segunda é uma ótima vilã – quase melhor que Esqueleto (Leto) – temida e poderosa. A astúcia das mulheres presentes em Mestres do Universo nos permite dirigir um olhar diferente e de um novo prisma. A força feminina é determinante para os rumos que a narrativa que o roteiro de Chris Butler e uma turma de outros três escreveram. O Príncipe Adam fica pequeno perto delas, e sua pequenez faz toda a diferença para que a jornada do herói funcione. A transição do primeiro para o segundo ato é desenvolvida de forma ideal se encaixando na proposta narrativa.
Duncan, o Mentor (Elba) tem sua história de redenção proporcionada pelo humor. Da alegria para a tristeza e da tristeza se reergue e alcança mais uma vez aquele sentimento de vitória e bom moço. Mas o alívio cômico fica mais do lado de Galitzine, com um Adam bobalhão, desengonçado e que não está disposto a se esforçar por sua redenção. Os diálogos entre Elba e Galitzine são muito bem construídos, ancorados em amizade, confiança e lealdade. A Espada do Poder não é só um ícone de força, mas ela se torna um elo de devoção pelos amigos. Pelos poderes de Grayskul, é o adágio dessa confiança e determinação. Eu tenho a força: revela a beleza, força e poder que um ser pode conquistar em prol da família e de todo um povo.
Jared Leto também conquista a sua redenção na atuação. Depois de algumas escolhas questionáveis, seu antagonismo como Esqueleto é majestosa. O ator está incrível, bem performático e convence-nos com sua maldade e sangue-frio. Leto sempre foi um bom ator e já conseguiu se provar diante de propostas não tão bem-feitas. Não é o caso aqui. O roteiro dá ao vilão o lugar e a importância que ele merece. Esqueleto não está atrás de vingança, de conquista e nem de usurpar um lugar, lar ou de prisioneiros. Ele quer somente uma coisa: poder. Nada o motiva mais do que ter em mãos a Espada do Poder e se revelar invencível a qualquer custo, debaixo de qualquer vida, ou a qualquer preço. Chegamos no ato final: a longa caminhada até a Montanha da Perdição. O reencontro entre pai e filho – Adam e o Rei Randor – interpretado por James Purefoy que motiva He-Man a revelar, de fato, seu poder, oferecido pela magia da Espada de Grayskul.
O retorno do “filho pródigo” – palavras ameaçadoras de Esqueleto – traz uma chance mínima de esperança para a recuperação da cidade e a libertação da família e dos amigos. Nenhum grande poder vem de graça e nem se sustenta por conta própria. Há um embate a ser travado e o amor pelos que a gente ama é a maior espada, é a maior luta que cada homem e mulher travam contra o mal. Até mesmo a amizade com um robô de lata faz a diferença e pode se tornar a arma secreta no final das contas. O retorno entre Pacato, o “gato covarde” e seu melhor amigo, Adam constroem uma bela cena que recupera a estima dos derrotados, mesmo diante de um luto. O Rei é morto diante do Príncipe Adam e a Rainha Marlena (Charlotte Riley) também reencontra o filho num momento decisivo. Tá vendo? Mais uma mulher que reconfigura a narrativa deste filme.
O coração de todo este filme habita no embate entre Leto e Galitzine. Há uma coreografia bem ensaiada e as lutas e toda a cena de ação são muito bem-posicionadas diante das câmeras. Outra personagem feminina ganha destaque: a Feiticeira (Baccarin), responsável não só por guardar o Protetor e o Guerreiro de Eternia, o Campeão de Grayskul, mas por costurar a narrativa entre um capítulo e outro. Vem o discurso encorajador de Adam que é sustentado em palavras de estima, singelas, simples, mas carregadas de verdade, amizade, bom-humor e carisma. A força, a identidade, a nossa personalidade, consciência e sentimentos, não habitam numa Espada do Poder. A maior força, o poder, está dentro de cada um de nós. Não é a espada que tem a força, mas quem a empunha, o coração do verdadeiro poder é o coração humano.
Por Dione Afonso | Jornalista.