07 Jun
07Jun

Quando Euphoria começou, Sam Levinson nos apresentou uma das melhores experiências da TV que poderíamos imaginar. A primeira temporada tornou-se produto mais visto, mais bem avaliado e de uma inteligência e criatividade inigualáveis. Como escrevi em 2020, a série “precisa ser lida com mais sensibilidade” e em 2022, “uma série sobre jovem, mas, ‘proibida’ para o público jovem”. A produção consagrou atriz Zendaya como a artista mais jovem a ser premiada por sua atuação como protagonista no Emmy Awards. A produção de Levinson também desbancou as concorrentes tornando-se a mais premiada daquele ano. Quatro anos depois chegou a segunda temporada que destoou por completo da ideia original. E, por fim, em 2026, o capítulo final chegou. Desconstruída da imagem original, o público reclamou profundamente de um produto que perdeu o tom, abandonou sua essência, apresentou problemas de roteiro e desviou o foco emocional trazendo um capítulo distribuído em longos e exaustivos 8 episódios. 

O que salva Euphoria do desastre total e de sua rejeição é a boa atuação. Não tem como não ficarmos vidrados na tela e nos surpreendendo a cada cena com o show que os artistas conseguem oferecer diante de um roteiro problemático e uma narrativa sem nexo. Retornam para a terceira temporada Zendaya (como a protagonista e narradora, Rue Bennett; Sydney Sweeney como Cassie Howard Jacobs; Hunter Schafe como Jules; Alexa Demie como a impecável Maddy Perez; Maude Apatow como Lexi Howard; Jacob Elordi, indicado ao Oscar, como Nate Jacobs; Colman Domingo como Ali e de forma reconfortante, temos Eric Dane, que já tinha cenas gravadas antes de seu falecimento e a homenagem que Levinson faz a Angus Cloud, como Fezco, que também faleceu durante a segunda temporada. 


Triste capítulo final 

É perceptível que a proposta para a terceira temporada de Euphoria se mostrava ser algo grandioso e com coerência. Dava para perceber a cada introdução de episódio que ali havia a tentativa de uma essência verdadeira. O grande sucesso da série, no seu início foi a capacidade de transcrever para as telas sentimentos humanos tão complexos e situações juvenis que se confiram em tabus de difícil interpretação. Infelizmente esta sensação não saiu do papel e o que vemos nas telas são 8 episódios que facilmente poderiam ter se resumido em dois. Não ficamos felizes com o fim e nem aliviados, por mais que já sabíamos que Rue Bennett não teria uma conclusão feliz para sua jornada, sentimos que fomos desrespeitados com a forma que a narrativa tratou do tema. 

É instigante como que uma produção que iniciou tão impecavelmente pode ter perdido o controle total como esta série. Para tentar defender esta jornada do terceiro capítulo, percebe-se que Levinson concentrou a narrativa em questões mais de cunho mentais do que propriamente sociais. Temos um Nate (Elordi) que cai numa desgraça financeira e se vê completamente perdido, a fim de que seu personagem não sucumba à loucura, o roteiro o dá um final indigno de sua atuação. Já Cassie, que teve a pior construção de personagem de toda a série, ficou completamente perdida no mundo da fama, de Hollywood e da indústria pornográfica. O distúrbio pessoal da personagem não foi tratado com o devido respeito e até agora estamos confusos com as decisões de roteiro destinadas a ela. Por fim, temos o potencial de Marshaw Lynch totalmente desperdiçado num papel “meia boca”, reduzido a cafetão e ao tráfico. 

Apesar de tudo isso, o sucesso da terceira temporada está nos views do streaming, tornando-a mais assistida que a temporada anterior e na eficácia e profissionalismo das atuações. Além, é claro da qualidade de produção e fotografia não terem caído. O estilo visual que vai desde o neon da primeira temporada até o ambiente aberto e agressivo da última é impecável. Marcell Rév, Rina Yang e outros 3 diretores de fotografia fizeram um trabalho belíssimo. A série também perde o humor sádico que ela possuía, descarregando na narrativa um drama ainda mais pesado, num ambiente violento e sem muitas perspectivas. Enfim, o que se salva? Primeiro, que toda experiência é válida e de cada um nós podemos extrair algo para a nossa formação humana. Segundo, nunca caberá a nós, os ditos críticos de cinema, decidir o que é bom e o que não é, cada um deve extrair seu próprio aprendizado de uma arte. Terceiro, Euphoria tem nosso respeito, possui um valor inestimável para a história da TV e sempre obterá a nossa atenção.




Por Dione Afonso   |   Jornalista

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