30 Mar
30Mar

Provavelmente muitos brasileiros nunca ouviram falar do acidente radioativo que ocorreu em Goiânia, no ano de 1987. Há também, aqueles que, mesmo ouvindo falar, não tem noção do que este trágico evento representa para o país e até para o mundo. Este incidente, que abalou o Brasil no final da década de 1980 e perpetuou ainda pela década de 1990 é considerado a tragédia radioativa mais grave do mundo não envolvendo uma bomba nuclear. Por mais que a tragédia confirme que 4 pessoas morreram de forma horripilante, estima-se que outras 60 mortes que ocorreram nos anos seguintes estejam diretamente ligadas ao elemento radioativo Césio-137 que foi exposto a céu aberto. 

A minissérie da Netflix foi criada por Gustavo Lipsztein. O cineasta Fernando Coimbra assume a direção e co-assina o roteiro ao lado de Lipsztein e de Rafael Spinola. No elenco, o protagonismo fica por conta de Johnny Massaro e de Paulo Gorgulho. Enquanto Massaro, que vive Márcio, um jovem recém-formado em química nuclear, precisa lidar com os entraves da profissão, pois o mercado não é muito abundante na área, Gorgulho, que interpreta Dr. Orenstein, responsável pela CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear, tenta lidar com as consequências que levaram ao trágico “acidente”. Bukassa Kabengele; Tuca Andrada; Ana Costa; Marina Merlino; Antonio Sabioa e Leandra Leal completam o elenco. 


“Papai trouxe as estrelas do céu pra você” 

Alan Rocha é João, pai de Celeste (Mari Lauredo) e Raimundo (Victor Salomão). Casado com Catarina (Merlino), João teve contato com o Césio-137, uma substância radioativa através do irmão Evanildo (Kabengele), que adquiriu o tubo ao comprar de dois catadores de lixo. A série inicia esta triste história com dois jovens que sobrevivem como catadores de ferro, chumbo e tudo o que puderem pegar para revender. Entre uma cata e outra, os catadores entraram numa clínica abandonada que havia no centro de Goiânia, onde encontraram um equipamento de radioterapia que foi abandonado com a substância radioativa. Fica evidente que o roteiro não excluiu e nem mesmo deixou às escuras sobre a negligência que empresas praticaram quando não recolheram o material radioativo daquele lugar. 

Da segunda metade para o final da série, a narrativa se distribui em duas frentes: enquanto assistimos a luta dos profissionais da saúde em tentar salvar a vida dos que foram drasticamente contaminados pela radiação; outro núcleo cuida da investigação policial até se chegar num culpado pelo abandono e esquecimento desta clínica. O césio-137 é um pó que, no escuro, tem um brilho azul, e ele é mais fino que o açúcar, ou seja, quando exposto, qualquer vento pode leva-lo para distâncias inimagináveis. Este acidente que aconteceu em Goiânia ganhou uma escala de periculosidade gigantesca, fazendo do Brasil o país que detém o título de pior acidente radioativo do mundo. 

Num geral, a produção da série é muito positiva. Bem filmada, colorida, com seriedade diante dos pacientes. O drama é na mediada certa. O falecimento e enterro das duas primeiras vítimas é retratado com originalidade, apesar de ter sido ainda mais violento e cruel na vida real, o impacto que o roteiro nos deixa é de doer a alma. O resgate histórico que Emergência Radioativa faz é urgente e necessário para compreendermos mais este capítulo da história de nosso país. O capítulo se encerra, mas o trauma permanece. O preconceito com as vítimas, o descaso do poder público, a governança desumana, o jornalismo sensacionalista e alarmista, o descaso com as famílias que perdem suas casas... Tudo isso permanece e a falta de um fim na minissérie retrata bem a realidade.




Por Dione Afonso  |  Jornalista

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