26 Jun
26Jun

As diversas narrativas que o audiovisual e a literatura nos apresentam evocando as possibilidades de haver vida inteligente fora do Planeta Terra sempre colocou os humanos como raça ameaçada. Em 1902, o cineasta francês Georges Méliès produziu o curta-metragem Viagem à Lua, e sua proposta “abriu as portas” para “brincar” com as possibilidades de haver alienígenas entre nós. Depois, na década de 1950 o cinema moderno lançou o clássico O Dia Que a Terra Parou. Robert Wise (1914-2005) apresentou uma jornada em que um alienígena pousa na Terra com a missão de levar uma mensagem de seu líder aos líderes do nosso planeta. Mas, nada supera a nossa experiência que Steven Spielberg nos proporcionou com E.T.: O Extraterrestre, de 1982. O alienígena é um ser inofensivo que acaba cativando a amizade de crianças. Spielberg nos fascina com uma jornada de descobertas, valores e sentido da vida. Hoje, Spielberg ataca mais uma vez e neste primeiro semestre de 2026 lança o longa Dia D, do inglês “Disclosure Day”, algo que se aproxima de “O Dia da Revelação”, ou “Dia da Divulgação”, em tradução livre. 

Em Disclosure Day, acompanhamos o pesquisador Daniel Kellner (Josh O’Connor) e a jornalista Margaret Fairchild (Emily Blunt) vendo suas vidas se conectando de uma forma incomum. De um lado, Daniel está em posse de algum tipo de dispositivo intergaláctico enquanto Margaret se vê “atingida” por alguma forma de conhecimento nunca antes adquirido e que chama a atenção de pessoas superioras ligadas ao governo e à inteligência internacional. Com Blunt e O’Connor, o elenco traz também Eve Hewson; Colin Firth; Colman Domingo; Mckenna Bridger; Wyatt Russell e muito mais. As jornadas das vidas de Margaret e Daniel se chocam com as possibilidades de nós humanos não sermos os únicos habitantes neste universo, mas, entretanto, os únicos que são capazes de qualquer coisa para o ser. 


Não aceitamos a concorrência 

O filme de Spielberg é muito bom! É genial como que o cineasta trabalha as conspirações antigas, mas não se apega ao que elas representam para nós. Steven Spielberg tem um olhar que atravessa a simples teoria e “brinca” com as infinitas possibilidades de realização de sua história. O roteiro que ele assina junto com David Koepp é dinâmico e traz uma narrativa que evolui de ato a ato e consegue nos apresentar o “ponto alto” de toda a virada histórica. Basicamente, o filme alimenta a ideia de que, vítimas de um passado cruel, uma nave intergalática caiu em solo terreno habitada por extraterrestres. Estes seres de outra dimensão encontraram em nosso planeta pessoas desumanas que não pensaram outra coisa, a não exterminar essas “criaturas” não as considerando dignas de sobrevivências. 

Eliminar toda e qualquer forma de concorrência que nos põe no plano de igualdade com outra possível nação, cultura, grupo de viventes parece ameaçar a autoestima humana e nos tirar daquele posto – se é que existe algum – de que somos únicos, inigualáveis, irrepetíveis, e que não há nada e nem ninguém capaz de desenvolver o mesmo que nós. É inacreditável o fato de que há seres humanos que se sentem tão superiores, altamente inteligentes na face da Terra, se o que vemos são exemplos de seres que matam, governam para destruir, suscitam a guerra e alimentam sentimentos como inveja, ciúmes, vingança... Se isso é o protótipo de ser humano inteligente, olha, não sei se quero fazer parte deste grupo. 

O evento que atravessa a rotina da jornalista Margaret, jornalista responsável em dar as notícias da previsão do tempo na TV em Kansas City a tira do eixo de uma forma muito simples e corriqueira. Mas a narrativa ao seu redor começa a ganhar um crescente e a personagem de Blunt evolui com um roteiro impecável. Spielberg não se interessa pelas mitologias que este tema já se desgastou em suas histórias, mas o cineasta quer algo mais comum, corriqueiro e “natural” a olhos humanos. No mesmo plano, a história nos leva até Daniel, que, sendo perseguido por algum tipo de investigadores do FBI, nos coloca num ritmo frenético, um filme de fuga política. Aqui entra em vigor a relevância daquele que faz o papel do mal e Colin Firth está muito bem nesse papel. A namorada de Daniel, interpretada por Eve Hewson ganha seu tempo de tela e passa a “protagonizar” a história até o ato final. 


O ser humano nos assusta 

Neste ponto do texto, Colman Domingo ganha a nossa atenção. O filme não deixa isso claro, mas parece-nos que aquela corporação privada com seus “soldados” da boa-fé, e os interesses de mercado e dos avanços da ciência eram comandados por dois grandes amigos. A interação entre Hugo (Domingo) e Noah (Firth) nos deixa essa sensação e isso foi muito bem planejado. A Direção de Fotografia comandada por Janusz Kaminski consegue nos colocar dentro daquela cena e nos faz sentir tudo o que aqueles dois personagens sentiram, desde o “você estava errado” até o “eu te peço desculpas”, algo que é pressentido apenas pelo olhar desses dois. A existência de uma outra vida para além a humana, habitante de outros planetas, ou de outros lugares entre a nossa galáxia, é entendida neste filme como a oportunidade de nós, seres humanos terrenos, não sermos o centro de todo o universo, que nele, há outras vidas, outras esperanças, outras narrativas. 

O desejo de sermos únicos nisso tudo é um desejo ousado demais. É assustador o fato do ser humano não se sentir satisfeito com um planeta inteiro para ele. Como se a Terra fosse pequena demais para satisfazer seus anseios, desejos, realizar suas aspirações. Assim como, é inadmissível que estes mesmos seres humanos usam e abusam desse recurso natural que temos no meio dessa galáxia. Maltratamos, poluímos e degradamos a terra, o ar, a água. Saciamos o nosso desejo de manipulação, controle, submissão. Somos inteligentes o bastante para viajar até à lua e voltar são e salvos, mas não temos sabedoria o bastante para reconhecer que é possível haver outras vidas fora de nosso planeta e que eles possuem muito para nos ensinar.





Por Dione Afonso  |  jornalista.

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