30 Mar
30Mar

As longas jornadas sci-fi como 2001, Uma Odisseia No Espaço (Stanley Kubrick, 1968); Interestelar (Christopher Nolan, 2014); Perdido em Marte (Ridley Scott, 2015); A Chegada (Denis Villeneuve, 2018) e tantas outras, são marcadas pelo rigor da ciência e a ameaça catastrófica que pode dizimar o mundo. As teorias de que há vida fora da Terra são exploradas de maneiras diversas nessas narrativas, inclusive, propondo novas formas de recomeço. Passageiros, de Morten Tyldum, lançado em 2017, trouxe um pouco desta ficção concatenando humor e romance numa jornada intergaláctica. 

Desta vez, a dupla Phil Lord e Chris Miller resolveram embarcar na história criada pelo escritor Andy Weir, o mesmo autor de Perdido em Marte. No novo capítulo literário, Weir ousa em apresentar uma substância biológica que pode salvar o futuro da humanidade. Em Devoradores de Estrelas, encontramos Ryan Gosling interpretando o professor PhD em ciências biológicas, Dr. Ryland Grace. Contra a sua vontade, Grace embarca numa jornada só de ida pelo espaço, em busca de uma substância misteriosa que está matando o Sol. E, logicamente que, sem o Sol a vida na Terra e toda a vida galáctica corre risco de desaparecer. O elenco também traz Sandra Huller; James Ortiz; Liz Kingsman e Lionel Boyce. 


Ainda há esperança na humanidade 

Gosling dá vida a um professor que não tinha grandes ambições na vida profissional. Nem na vida pessoal, já que a narrativa não conecta o Dr. Grace com nenhum parentesco e nem mesmo com nenhum interesse romântico. Ao ser recrutado de maneira cômica, mas desafiadora, Grace se encontra entre os mais inteligentes do mundo que se juntam para descobrir uma forma de salvar o Sol e toda a humanidade. É muito positivo como que o roteiro vai consolidando sem pressa, mas muito bem equilibrado, o personagem de Gosling como a última esperança. Aquele que não desejava, aquele que disse não, aquele que não sonhava com algo tão grande, é o que desperta de um coma e salva a todos. 

A viagem para o espaço é só de ida. Essa premissa é quase que universal em todas as histórias deste gênero. A amizade e o amor pela humanidade são o que sustenta a missão de Grace diante do vazio da galáxia e diante da assustadora força do Sol. Quando Grace, inesperadamente faz amizade com uma pedra alienígena e que a chama de Rocky, Devoradores de Estrelas torna-se um filme divertido, engraçado, regado a humor e que se permite as mais loucas aventuras. A nave de Grace é equipada com tudo o que ele precisa até o término da missão, e parece que ali ele tem tudo o que um ser humano necessita para manter o foco e não enlouquecer sozinho no meio do espaço. 

Um dos maiores perigos do ser humano é a solidão. Quando ela vem, vem sem dó e arrasta quem ela encontrar no caminho. A solidão humana é cruel e devastadora. Grace, quando desperta sozinho na nave e vê que todos os outros haviam falecido e somente ele restou, o desespero e o medo de ser sozinho toma conta de seus sentimentos. A narrativa brilha com a mais perfeita honestidade em revelar o que há de mais perverso em se sentir só e não saber como superar tamanha tristeza, mesmo tendo todo o mundo ao seu redor só para si. 


Entre passado e presente 

Os flashbacks adicionados durante toda a narrativa foram essenciais para que esse núcleo do isolamento humano e da vida solitária de Grace ganhasse peso dentro da história central. Mais do que salvar a Terra, curar o Sol e evitar a catástrofe, Grace era sozinho até mesmo quando estava feliz em sua profissão, rodeado de alunos. Mas, ele não tinha namorada, nem amigos, nem colegas de profissão. Ao despertar numa nave, sozinho, com dois corpos sem vida e no meio do espaço, que já é assustador por si só, os flashbacks vão nos dando contexto a fim de compreendermos como que um professor, contra a sua vontade, acabou se tornando o herói da humanidade. 

Devoradores de Estrelas é mais uma história brilhante que merece nossa atenção. Mais leve, menos perturbador, mais colorido, e sem focar na ameaça com peso narrativo. O protagonismo se volta para a amizade entre um ser humano e uma pedra alienígena. O conceito de heroísmo é inserido como peça-chave no final para amarrar tudo o que foi construído desde a descoberta do perigo até a solução. O fim é divertido, confuso, mas libertador. Foi preciso que um ser humano saísse da Terra para se tornar amigo e conviver em grupo no espaço, em outro lugar em que é possível viver.




Por Dione Afonso  |  Jornalista.

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