08 Sep
08Sep

A saga deste filme, para que chegasse às salas dos cinemas é longa. Com justificativas que apresentavam “cortes de gastos”; “desinteresse público” e algo que “não era a cara dos estúdios”, Coyote vs. ACME, foi cancelado em 2023 pela Warner Bros. O trabalho não teve nem a chance de ser lançado pelo streaming, a fim de “driblar” os impostos e apresentar uma distribuição mais reduzida com uma proposta menor de investimento. Quem se lembra do filme da BatGirl? Pois é, a empresa estava passando por uma grande crise financeira, houve troca de CEO e muitas reduções de gastos. Contudo, eis uma reviravolta: o filme live-action que mistura desenhos com humanos reais estava pronto. Fechado, já no ponto para rodar. Nas exibições-teste, o longa foi muito elogiado e começaram a questionar por que não o levar para os cinemas, para o público. Após muita pressão e tentativas de venda para outros estúdios, a Warner, resistente no lançamento, Coyote vs. ACME foi salvo por um estúdio pequeno, de pouca relevância no mercado e hoje, tornou-se sucesso de bilheteria. 

No elenco nós temos: Will Forte; Lana Condor; John Cena; Tone Bell; Martha Kelly e muito mais. Praticamente os personagens da Looney Tunes estão quase todos no filme: Pernalonga, Papaléguas e Coyote, Patolino, Gaguinho, Piu-Piu e Frajola, Taz, Frangolino e mais alguns. A trama segue Coyote e o advogado Kevin Avery (Forte) que decidem processar todos os produtos da ACME, empresa representada pelo valentão Buddy Crane (Cena). Avery tem um escritório de advocacia de pequenas causas que tenta sobreviver com pequenos casos e que possui um histórico de submissão diante das ameaças e subornos de Crane, antigo colega do colegial. A partir daí é só seguir a trama judicial entre humanos e os personagens dos desenhos convivendo no mesmo plano terreno. 


Comédia de tribunal muito criativa 

O trabalho é comandado pelo diretor Dave Green, que conta com um excelente roteiro feito a várias mãos: Samy Burch; James Gunn; Jeremy Slater e Ian Frazier. O filme nos apresenta algo corajoso e necessário para a atualidade: a decisão de processar uma grande empresa que representa um monopólio cruel e desumano que aplica seus avanços tecnológicos em testes abusivos visando apenas o lucro e a obtenção de cada vez mais poder e soberania. A ACME é a empresa responsável por todos os produtos que vemos nos desenhos, usados, por exemplo: por Patolino, quando tenta se dar bem na vida. Pelo Frajola, em suas armadilhas para pegar o Piu-Piu e pelo Coyote, com o objetivo insaciável de perseguir e comer o Papaléguas. Contudo, todos os produtos da tal empresa apresenta falhas que acarretam acidentes graves com os personagens dos desenhos. Portanto, a chamada judicial é: até quando os desenhos serão vítimas de experimentos cruéis como estes enriquecendo cada vez mais a ACME? 

Avery e Coyote enfrentam o tribunal e o roteiro nos faz divertir com esta trama, pois tudo é muito leve, divertido, sem grandes reflexões, mas com uma proposta envolvente de mistérios, perseguições, ameaças e muitas explosões. É aqui que vemos o quão é bom e agradável a gente ainda se deparar com um humor bem-feito e, que, de fato, nos diverte sem apelar para a ofensa ou o sarcasmo preconceituoso. Algum dia, você já teve empatia pelo Coyote? Alguma vez você já torceu por ele? Já teve aquele capítulo em que você desejou muito que Coyote vencesse? Green e sua equipe de roteiristas parecem ter pensado nessa possibilidade em dar ao personagem que sempre foi vítima das engenhocas produzidas pela ACME, ter uma vitória na vida. Pelo menos uma vez. E isso acontece: calma, ele não vai comer o Papaléguas, mas vai sair vitorioso do tribunal quando percebe que toda aquela perseguição é a razão de ambos existir e isso forma um forte vínculo de amizade entre os dois. 

A essência dos desenhos é preservada ao mesmo tempo em que a história nos entrega algo novo e que nos prende à trama. Há um momento nostalgia em que vários personagens da Looney Tunes aparecem no filme e isso é gratuito e gera empatia da parte do público e enriquece a trama dentro de um contexto que faz todo o sentido para a história que está sendo contada. Quando o Papaléguas chega ao tribunal e testemunha a favor de um personagem que nós o pintamos como o seu arqui-inimigo, há uma virada de chave em toda a narrativa e passamos a compreender que os verdadeiros inimigos é a ambição do ser humano que insiste em afirmar perante todos que a única e exclusiva função dos desenhos existirem seria servir a esse interesse doentio. 


Ótimas atuações que reforçam a energia do filme 

A decisão de colocar John Cena em contraponto com Will Forte gerou um equilíbrio essencial para toda a história. Alguém teve que se assumir vilão da história antes que ela concluísse e Cena se prestou a este papel. Forte inicia a jornada como um advogado bobo, sem perspectiva e que sempre abaixava a cabeça. A chegada de uma estagiária, Paige, vivida por Lana Condor desestabilizou a ordem do escritório. Kevin Avery ainda contava com a sua secretária Dottie (Martha Kelly), uma funcionária que não tinha muito o senso de justiça e era bastante egoísta e pensava em suas necessidades e o advogado Maltese (Tone Bell), que até tinha a cabeça no lugar, mas era alguém que sempre lembrava a Kevin que o importante não era vencer processos, mas garantir o dinheiro no fim do mês para manter o escritório de pé. 

É a personagem de Condor que tira a ordem natural da vida pacata e sem ambição e Kevin. Sua personagem, Paige, uma estudante de Direito que fazia estágio no escritório tinha adrenalina o suficiente para lutar a favor da justiça e enfrentar qualquer peso diante de um tribunal. Processar a ACME por praticante toda a linha de produtos que ela comercializa seria uma grande vitória para o currículo não só de Paige, mas do escritório. O filme acaba não aprofundando muito na jornada desta personagem, mas isso é positivo, pois era preciso se concentrar em Coyote e suas tramas. O que a gente já esperava, mas que foi de bom grado, foi o plot twist das segundas intenções de Coyote. Ele não estava interessado no processo, mas o próprio ato fazia parte de mais uma de suas tentativas em prender o Papaléguas. 

Portanto, Coyote vs. ACME é um filme que agrada toda a família. Ele é, literalmente uma história em que todo o público conseguirá consumir. O fato da Warner Bros vender o trabalho para a Ketchup Entertainment, fez com que uma produtora independente, pequena, recente no mercado, acabe lucrando, e muito, com uma história que já estava engavetado e que hoje está fazendo sucesso nas bilheterias e também de público e de crítica. A produtora tem os direitos de distribuição e comercialização do filme. É uma boa história, uma aventura simples, mas muito bem construída e com humor leve, divertido e inteligente.




Por Dione Afonso, jornalista.

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