14 Aug
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O jogo do bicho surgiu em 1892, no Rio de Janeiro, criado pelo Barão João Batista Viana Drummond como uma forma de atrair visitantes para o seu Jardim Zoológico, em Vila Isabel. O zoológico, inaugurado em 1888, passava por dificuldades financeiras depois de perder o subsídio imperial. A ideia era simples: quem comprava o ingresso recebia uma figurinha com um dos 25 animais da lista. Na entrada do zoológico, uma imagem de um desses bichos ficava escondida dentro de uma caixa de madeira no alto de um poste. No fim do dia, o animal era revelado e quem tivesse a figurinha correspondente ganhava um prêmio equivalente a 20 vezes o valor do ingresso. 

O que começou como uma estratégia para salvar o zoológico rapidamente ganhou as ruas e se transformou em uma forma popular de aposta. A prática se espalhou pelo Rio de Janeiro e, depois, por outras regiões do Brasil. Pouco tempo depois, as autoridades passaram a considerar a atividade uma forma de jogo de azar e ela foi proibida. Mesmo assim, a proibição não impediu sua continuidade: o jogo passou a ser realizado de forma clandestina e acabou criando uma rede de pontos de aposta e personagens conhecidos como os “banqueiros do bicho” ou “bicheiro”. Na sátira Corrida dos Bichos, vemos que o Jogo do Bicho evoluiu para um espetáculo brutal: pessoas usando máscaras de animais correm por uma paisagem urbana devastada do Rio de Janeiro, lutando por suas vidas e pela vida de seus “seguros”, enquanto a elite aposta em seus destinos. Apesar de não ser baseado em fatos reais, ele é inspirado no universo do jogo do bicho, que existe de verdade no Brasil. 

Dirigido por Fernando Meirelles e com contribuição de Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, o longa é estrelado por Matheus Abreu; Rodrigo Santoro; Ísis Valverde; Thainá Duarte; Anitta; Bruno Gagliasso; Grazi Massafera; João Guilherme e Azzy. Lançado pelo MGM Studios Amazon, o roteiro é assinado por Solis em parceria com Rodrigo Lages. Vemos uma ambientação distópica da “Cidade Maravilhosa” brasileira, marcada pela violência e brutalidade que este esporte radical provoca, não só nos envolvidos, mas até mesmo na comunidade ao redor. 


Um Rio de Janeiro transformado pela catástrofe 

A história se passa no Rio de Janeiro, onde uma catástrofe ambiental transforma completamente a cidade e faz com que a sociedade fique ainda mais dividida entre classes. Nesse novo cenário, o maior entretenimento da elite é assistir à Corrida dos Bichos. A periferia participa das apostas, escolhendo quem acredita que vencerá, enquanto os magnatas controlam os “bichos”, pessoas vindas das regiões periféricas que são obrigadas a correr em busca de um prêmio milionário.No filme Corrida dos Bichos, os personagens ajudam a mostrar diferentes lados do sistema criado em torno da competição. Seu Jorge interpreta um ex-corredor, alguém que já viveu a corrida por dentro e conhece as dificuldades e os riscos enfrentados pelos participantes. A experiência dele faz com que o personagem tenha uma visão mais humana sobre os corredores e com sua experiência ajuda o personagem Mano a vencer a corrida e ter outra visão de jogo em relação aos outros corredores. 

Rodrigo Santoro interpreta um personagem ligado ao comando do jogo, marcado pela ambição e pela ganância. Ele representa quem está no topo dessa estrutura e consegue transformar a vulnerabilidade dos outros em uma fonte de poder e dinheiro. O personagem também é apresentado como um cafetão, reforçando a exploração das pessoas que estão em situações de fragilidade e mostrando como diferentes formas de violência e exploração podem estar conectadas dentro desse universo. Já Bruno Gagliasso vive um dos jogadores mais violentos e ambiciosos da trama. Ele não mede esforços para eliminar aqueles que considera mais fracos e está disposto a ultrapassar limites para continuar no controle. Além da disputa dentro da própria corrida, seu personagem também está relacionado a atividades criminosas, como o tráfico humano e a exploração sexual. Dessa forma, o filme utiliza esses três personagens para apresentar uma sociedade marcada pela desigualdade, na qual os mais vulneráveis são colocados em situações extremas enquanto aqueles que controlam o sistema acumulam cada vez mais poder e dinheiro. 

Na trama, Mano (Matheus Abreu) lidera um grupo de rebeldes que vive em um perímetro onde os moradores rejeitam esse tipo de entretenimento. Ao lado de Abreu, temos Silvero Pereira e Jade Sassará, que também lidam com a violência na área do perímetro. Esta região, segundo esses “guardiões dos muros” do perímetro, é como se fosse uma zona de segurança. Há no fundo, um desejo de acabar com o jogo, porém, parece que os atos cruéis e violentos falam mais alto. As comunidades vulneráveis sempre ficam à mercê das oportunidades. É neste contexto que Dalva (Thainá Duarte), irmã de Mano, acaba se tornando “seguro” do seu namorado Jonas (João Guilherme), esperançosa de que com a vitória, poderá recuperar um mínimo de dignidade. Mas, no fim, Mano se sente na obrigação de entrar na corrida para salvá-la. 

Em entrevista ao portal do Omelete, o cineasta Fernando Meirelles complementou o contexto da história e explicou como funciona esse novo mundo de Corrida dos Bichos. Segundo ele, a trama se passa em um futuro não muito distante, marcado pelo agravamento da desigualdade social e por uma grave catástrofe ambiental que transforma completamente o Rio de Janeiro. Com a cidade parcialmente esvaziada e o cenário urbano profundamente alterado, o tradicional Jogo do Bicho sobrevive, mas assume uma nova forma. Em vez do antigo sistema de apostas baseado em sorteios, o jogo passa a ser realizado por corredores, atletas vindos das regiões periféricas que representam diferentes animais. 


Uma ideia ambiciosa que dividiu o público 

A ideia reforça uma das principais críticas do filme: enquanto a população pobre é colocada em uma disputa pela própria sobrevivência, os milionários transformam esse sofrimento em entretenimento e lucro. O jogo, portanto, funciona como uma representação extrema de uma sociedade na qual a desigualdade chegou ao limite. Cada competidor usa uma máscara que simboliza o seu “bicho” e é deixado em um ponto diferente da cidade. A partir daí, precisa atravessar o território até alcançar a linha de chegada. A corrida, porém, não possui praticamente nenhuma regra de proteção: os participantes podem enfrentar-se uns aos outros de maneira violenta e até matar para conseguir chegar ao destino. 

Mesmo com o elenco de peso e com Meirelles sendo um cineasta bem renomado, tendo Cidade de Deus na lista de sua filmografia e como uma de suas grandes produções, o filme não agradou a muitos. A obra está com uma nota de 4,4 no IMDb (Internet Movie Database), que é um dos maiores e mais populares bancos de dados online do mundo sobre a indústria do entretenimento. Claro que este trabalho também entra para o rol das produções nacionais que merecem nossa atenção. Estamos diante de um elenco de peso: Seu Jorge, Gagliasso e Santoro formam ali uma tríade de atuações que só enriquecem a nossa experiência. 

Não podemos deixar de citar as mulheres: Massafera e Valverde, mesmo que ocupando o posto de coadjuvantes, elas apresentam dois pontos de vista: enquanto a primeira é a mocinha queridinha do maridão que não poupa tempo em controlar, manipular e abusar de garotas, Valverde quer dar um novo rumo para a sua vida. Rebela-se contra o marido (Gagliasso) e decide reescrever o próprio futuro. Ainda temos o brilho de Anitta e as escalações das mulheres “bichos” na corrida que não teve tanto apreço na tela, mas elas estão ali. 


Entre a crítica social e o espetáculo 

Mais do que uma corrida, o filme mostra um futuro onde a desigualdade deixou de ser apenas uma diferença econômica e passou a definir quem pode viver, quem precisa lutar e quem tem o privilégio de apenas assistir. Será que hoje também não é assim? Esta reinterpretação do Jogo do Bicho em uma competição mortal mostra justamente esse mundo. De um lado, estão os corredores, que precisam arriscar suas vidas para proteger as pessoas que amam. Do outro, uma elite que transforma toda essa situação em entretenimento e aposta no destino de pessoas que não têm escolha. 

O filme também conta com um misto de tecnologias. Foi interessante ver as apostas sendo realizadas por maquininhas digitais, pulseiras magnéticas e a arena dos jogadores ser construída com aparato digital até em 3D em algumas cenas. Os corredores viram avatares na plataforma virtual. Ao mesmo tempo que foi até um pouco amador ver os motoqueiros com antenas de wi-fi acopladas nos capacetes, a fim do espetáculo ser transmitido. Mesmo dividindo opiniões, Corrida dos Bichos traz uma proposta diferente ao misturar ficção-científica, ação e crítica social para mostrar um Rio de Janeiro onde muita coisa mudou, mas a desigualdade continua sendo uma das principais marcas da sociedade.





Texto de: Ana Maria Muniz  | @ana_maria020209 

Estagiária de Jornalismo pela PUC Minas 

14 de agosto 2026.

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