Na primeira parte da adaptação que Laura Mora e Alex García López dirigiram para a Netflix, vimos o quão grandiosa é a obra literária deixada pelo escritor Gabriel García Marquez. A obra é um dos clássicos mais vendidos em todos os tempos e retrata valores sociai como a convivência, a importância de uma sociedade livre de guerra, o amor pela vida e o respeito e reverência por uma boa morte. Na primeira parte, os protagonistas que deram vida ao casal José Acácio e Úrsula inauguraram um novo tempo pautado nestes valores e foram construindo na fictícia Macondo uma sociedade que tentou sobreviver aos deslumbres da vida e do progresso.
Marleyda Soto retorna reprisando o papel da matriarca dos Buendía, Úrsula Iguarán. Também retorna Claudio Cataño Porras como Aureliano Buendía. E a nova fase dos habitantes de Macondo é integrada por Aureliano II interpretado por Thiago Suaza na sua fase jovem e Julián Roman na fase adulta; José Arcádio II, irmão gêmeo de Aureliano II também é interpretado em duas fases por Emmanuel Suaza e, também por Julián Roman. O livro de Marquez retrata sete gerações da família Buendía. Trata-se de uma família numerosa e que se torna o centro narrativo de toda esta trama que envolve política, valores culturais e religião. Novos integrantes são vividos por Carla Baratta; Juanita Molina; Ángela Cano e outros.
Nessa segunda parte da adaptação vemos a fictícia Macondo avançando no tempo depois de conhecer as belezas da energia elétrica e da chegada do trem de ferro. A locomotiva surge não apenas como uma interligação com o mundo exterior. Muito pouco se mostra como um meio de transporte público, mas o forte mesmo é a exportação comercial. Com a chegada dos turistas, estes ficam deslumbrados com iguarias locais que não conheciam e nunca tinham visto em nenhum outro lugar. De uma maneira cômica até, a banana é este produto que se torna praticamente a “mina de ouro” de Macondo e que é exportada diariamente pelos vagões do trem. Uma coisa nos chama a atenção: não se trata de alguns enriquecer mais que os outros. Os habitantes de Macondo não possuem esta ganância e no povoado ninguém vive com mais ou com menos. E as terras não são propriedades privadas, mas tudo é de todos.
Contudo, as consciências externas não pensam assim. Os turistas, os ricos e gananciosos e até mesmo os soldados e policiais que vêm de fora e ali se instalam possuem outra cultura, foram educados de outra maneira e ao conhecer Macondo, eles enxergam uma oportunidade de enriquecer sobre as custas de outros trabalhadores. O que acaba gerando um grande conflito, intervenção militar e ao massacre de 3 mil pessoas que lutavam por seus direitos e por liberdade. A luta pela escala 8x8x8 era uma luta justa e refletia tudo o que estava na origem da família Buendía e no sonho original daquele pequena Macondo que foi crescendo e se tornando um povoado onde pessoas simples, mas muito inteligentes construíam suas vidas.
Talvez não se trate disso nas páginas da literatura de Gabriel García Marquez, mas o que a adaptação deixa registrado é que o progresso é um vírus que se entrelaça nas relações sociais e vai consumindo antigos valores em prol de ostentar e fomentar outros novos que, na maioria das vezes depõe contra a ideia original. Mesmo não acreditando nisso, a obra de Marquez tenta lidar com o fracasso humano diante da própria história. É por isso que a metáfora da chuva nesta segunda parte é muito real, pois quando nós nos esquecemos da própria história, corremos o risco de cometer os mesmos erros do passado e, portanto, afogamo-nos desmemoriados, pois não conseguimos aprender com a história.
Se a primeira parte foi dramática, esta segunda é ainda mais pesada nesse ponto. Nós humanos não conseguimos lidar com a finitude da vida e aos poucos vamos assistindo cada personagem se esvaindo, perdendo-se na própria solidão quando não sucumbem à própria loucura. Foi muito marcante, na primeira parte, assistir os últimos dias de vida de José Arcádio, preso, amarrado à árvore porque não conseguia mais lidar com a própria consciência. Sua esposa, Úrsula não sucumbiu à loucura, mas teve uma morte mais tranquila, plena e parece até que ela morreu feliz. Mas antes disso, teve que assistir os gêmeos Aureliano II e José Arcádio II morrerem no mesmo minuto: o primeiro atormentado desde o dia do massacre na estação de trem e o segundo, doente, morreu na própria cama.
O tema da violência política e do fanatismo religioso também é mais pesado nesta segunda parte. O fato de termos em tela sete gerações de uma mesma família nos ajudam a perceber que o tempo não funciona numa linha reta, mas ele é circular e os velhos hábitos e costumes sempre encontram nas novas gerações novo palco para as suas ações. A adaptação tem críticas positivas, contudo, há ainda os adeptos do livro que afirmam que ela não foi capaz de abranger a força do seu escritor. E que bom! Vale a pena gastar algumas horas para conferir este trabalho, é uma boa adaptação, mas ela nunca irá superar a grandiosidade que Gabriel Garcia Marquez imprimiu naquelas páginas. Vale a leitura além da obra televisiva.
Por Dione Afonso, jornalista.