Criado em 1940, o personagem Cara-de-Barro (Clayface) apareceu pela primeira vez na HQ da DC Comics sobre investigação policial. A dupla Bill Finger e Bob Kane, ao criar o personagem, concedeu a ele um passado marcado pela loucura e a dificuldade de se socializar. Sua primeira identidade foi Basil Karlo, um ator de filmes de terror que, ao ser jogado para escanteio na injusta indústria hollywoodiana, deixa seus maus sentimentos agirem e se transforma num criminoso com poderes de lama e argila. Não demorou muito e um ano depois conhecemos Matt Hagen, uma segunda identidade para o vilão. Diferente do filme de 2026, Hagen era um caçador de tesouros que adquire os poderes metamorfos numa caverna. Ele passa a poder transformar o próprio corpo em lama e moldar-se como qualquer outra pessoa e até objetos. Uma década depois, surge Preston Payne, um cientista que tenta se curar com o sangue de Hagen.
Com a direção do cineasta James Watkins, chega aos cinemas o longa Cara-de-Barro, estrelando Tom Rhys Harries no papel do personagem-título. Com roteiro de Mike Flanagan, a história opta por mesclar as três personalidades: filme conta a história de Matt Hagen (Harries), um ator de sucesso de grandes filmes de drama, inclusive com indicação ao oscar que, após sofrer um atentado tem o rosto desfigurado. Hagen conhece uma cientista que desenvolve uma pesquisa em nano células capazes de reconstituir a pele humana. A Dra. Caitlin Bates (Naomi Ackie) faz o experimento em Hagen que acaba não saindo como o esperado. No elenco, Max Minghella, Eddie Marsan, David Dencik e Joshua James completam a história.
James Gunn dá um importante passo para o seu Universo da DC ao lançar Cara-de-Barro. Sabemos que no desenvolvimento das HQs, o personagem vai acabar cruzando o caminho do Batman, tornando-se um importante vilão do Homem-Morcego. Não sabemos ainda o futuro do personagem, mas a boa atuação de Harries e a boa aceitação pela crítica podem garantir um futuro próspero para o personagem. Gunn ainda não escolheu o futuro Batman da nova DC, mas o vilão aproxima esta decisão cada vez mais. O filme de Watkins é fechadinho, bem-feito, sem rodeios, curto, rápido e honesto. Temos o desenvolvimento de um personagem bem construído e sincero. Flanagan faz um roteiro bastante lúdico e preocupado em não deixar pontas soltas evidenciando como que o mal se consolida na personagem. Matt Hagen era honesto até a desonestidade tirar dele tudo o que construiu. Isso abre as portas para um mundo de crimes, assassinatos e vingança.
Classificado como um filme de terror, de fato, a história nos faz querer fechar os olhos em algumas ocasiões desconfortáveis. Contudo, já era de se esperar como que iriamos lidar com um ser humano se transfigurando num amontoado de lama que pode se transformar em quem ele quiser e no que ele quiser. O ato final do filme é incrível, bem planejado e com cenas violentas perfeitas e que enchem nossos olhos de satisfação. Ao mesmo tempo que era Hagen, não era ele, e ele consegue enganar até o público quando se assusta com a cartada final. Hagen abandona sua profissão, tudo o que construiu, deixa de amar e de acreditar e passa a ser apenas alguém capaz de se vingar, machucar e de matar quem o fez mal e quem o traiu.
Por fim, Cara-de-Barro vale muito a pena. Vale o ingresso. Vale a nossa atenção e admiração. É um bom filme com ótimo roteiro e história de origem direta, honesta e bem-feita. O vilão é um personagem simples, que as vezes não teve muitos créditos na história das adaptações, mas ele é perigoso, assustador e pode nos surpreender muito no futuro dentro da DC. Queremos ver mais de Harries, um ator excelente, que se entregou ao papel e nos deixou com medo e com nojo. Talvez, o próximo passo de James Gunn será estabelecer um herói importante da DC afim de conectar o Cara-de-Barro em próximos projetos. Lembrando que a primeira aparição do personagem na era James Gunn foi na primeira temporada de Comando das Criaturas, dublado por Alan Tudyk e que reiniciou o DCU de Gunn.
Por Dione Afonso, jornalista.