19 Jul
19Jul

As investidas de releitura dos clássicos literários são sempre bem-vindas. É uma forma de manter viva a origem e de reapresentar para a nova geração as raízes de quase tudo o que eles têm na atualidade. O poeta Homero, que viveu na Grécia Antiga é reconhecido como o fundador da literatura ocidental e têm patenteado duas epopeias: A Ilíada e A Odisseia. Lançados por volta do século VIII a.C., uma epopeia é um poema que narra os grandes feitos heroicos de alguém, bem como narra, as lendas, os valores e eterniza os contos culturais de um povo ou de uma grande nação. Por conta da temporalidade, acredita-se firmemente, neste caso, na tradição oral, no qual esses poemas foram transmitidos de geração a geração até um dia serem escritos. 

Christopher Nolan é um cineasta muito respeitado. Sua filmografia tem o dom de nos incomodar, tirar do nosso conforto e nos fazer lidar com qualquer coisa que escapa do nosso controle. Nolan já enfrentou a morte; já inverteu o tempo; quis avançar além do que a memória suporta; humanizar heróis e dar ao ser humano algo de heroico para se vangloriar. Desta vez, Nolan quer nos fazer enfrentar as próprias escolhas, a fim de não escapar delas. No elenco, Matt Damon; Anny Hathaway; Tom Holland; Charlize Theron; Elliot Page; Robert Pattinson; Zendaya; Mia Goth; Travis Scott; John Leguizamo dão vida a essa longa jornada no cinema. 


Inverter a temporalidade a favor da narrativa 

O poema homérico ganha uma versão cinematográfica à altura do que a literatura representa. Apesar do Odisseu de Damon ser o grande protagonista da jornada, quem rouba a cena é seu filho Telêmaco (Holland) e sua esposa, Rainha de Íthaca, Penélope (Hathaway), e, no segundo ato, entra o antagonismo muito bem colocado de Pattinson, interpretando ganancioso Antíoco. Para quem já leu Homero, percebe que seus poemas possuem algo muito íntimo e pessoal, ao mesmo tempo que eles narram uma jornada que ultrapassa os limites da intimidade e torna público dilemas como a fidelidade nas relações, a verdade na governança e a amizade nos salões de festas. Telêmaco teme que seu futuro reinado de Íthaca seja lançado em mãos desonestas e desordeiras depois de mais de décadas sem notícias do pai. 

É curioso o fato de Nolan não explorar o que já está no nosso imaginário que é a Guerra de Tróia. O que nos ajuda a compreender que A Odisséia, o livro, não se resume a apenas este capítulo e nem é a centralidade de toda a epopeia poética. O tal episódio é apenas um capítulo dentro da grande jornada. É essencial também, lembrar ao leitor e aos telespectadores que estão indo ao cinema conferir esta obra de arte que toda esta jornada é fictícia. Ela não ocorreu nem mesmo na Grécia Antiga, mas é uma literatura fictícia criada pela tradição oral e depois reunida em um grande livro como conhecemos hoje e, atribuída a Homero. Portanto, não deixem este detalhe de lado.  

Penélope e Telêmaco carregam o primeiro ato do filme e formam a base para o ato final, em que o príncipe, com uma ajuda misteriosa, fortalece-se para, de fato, assumir o trono de Íthaca e se tornar rei. Essa dupla se encarrega de pôr a carga dramática de que o filme precisa e que acaba se ancorando nas cenas seguintes. Paralelamente, a jornada de Odisseu ao lado de seus guerreiros parece se tornar mais um plano extra que vai costurando a trama que está no primeiro plano. Por fim, percebemos que o filme de Nolan se preocupa mais em tratar de crescimento humano, fidelidade e amizade do que se agarrar a elementos já previstos. Tanto é que a bela Helena de Tróia acaba não ganhando centralidade, mesmo que sua intérprete, Lupita Nyong’o, quando aparece em cena, acaba dando o seu recado com maestria. 


Não ignore sua própria jornada 

Por mais dura, insegura, e longa que seja, é o caminho que percorrer que irá definir seu futuro. É curioso a forma que Nolan decide dar vida aos deuses que “entram na história”, como Calipso, deusa da sedução, interpretada por Theron; Athena, deusa da justiça, da sabedoria e da guerra, vivida por Zendaya e Circe, uma feiticeira, especialista em poções que transformam homens em animais, que é interpretada por Samantha Morton. Essas “criaturas” não surgem de forma fantasmagórica, ou mágica, ou ainda como alucinações, muito pelo contrário, Nolan dá a estas entidades uma vida comum, que não habita apenas nossos sonhos e interferem em nossas reflexões, mas que podem estar junto de nós, lado a lado e que possuem um papel crucial na nesta jornada. E tem mais: interferir, ou desprezar o conhecimento desses deuses põe em risco a própria jornada e a certeza de um futuro seguro. 

Nesta releitura, para Nolan, a vitória de Odisseu não é a tomada de Troia e seu maior feito não foi a ideia do cavalo, como afirmamos no começo deste texto, o grande ponto positivo de Nolan foi a de desconstruir em nós esse imaginário coletivo que nos fez reduzir a obra a apenas este episódio na longa história. Mas, desta vez, o que assistimos retrata uma história de confiança, poder, lealdade e da hospitalidade, que, para a cultura grega, vale mais que qualquer outro hábito. Vemos isso quando Odisseu se disfarça de mendigo e é tratado como qualquer outro no salão, porque é digno se fazer com um ser humano. Às novas gerações que desejam ter contato com os grandes clássicos da literatura, vão ao cinema sem criar grandes expectativas e sem construir pré-julgamentos. E, esperamos que este épico os convida a conhecer mais a fundo este tesouro literário presente nas bibliotecas espalhadas por aí e nas livrarias, sejam virtuais, sejam físicas.




Por Dione Afonso  |  jornalista.

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