Com poemas atribuídos ao poeta inglês William Langland [1332-1386], da Idade Média, a origem de Robin Hood segue sendo até hoje uma das mais enigmáticas na literatura. Não é possível classificar seu criador a uma única mente. Nascido do folclore popular e da tradição oral numa Inglaterra medieva, há relatos de sua menção em textos poéticos que datam do século XIV. Muito tempo depois, foram as literaturas de Walter Scott, século XIX e de Howard Pyle, em 1883 que popularizaram o personagem. Scott foi quem deu a visão moderna e romântica ao herói que temos até hoje e Pyle consolidou Robin Hood num conto para crianças com feições clássicas das histórias infantis. Já no audiovisual, pelo menos 40 artistas o interpretaram diante das telas. Em 1912, num curta-metragem, Robert Frazer empunhou o arco e flecha do personagem pela primeira vez. Depois dele muitos deram vida a Robin Hood: Errol Flynn, em 1938; Richard Todd em 1952; Kevin Costner em 1991; Russell Crowe em 2010; Taron Egerton em 2018...
Para aumentar um pouco mais esta lista, Hugh Jackman interpreta o personagem num longa dirigido por Michael Sarnoski. Jodie Comer; Bill Skarsgard; Noah Jupe e Murray Bartlett também estão no elenco. Com o roteiro também de Sarnoski, a história nos apresenta uma nova perspectiva do personagem. Desta vez não nos importa muito se devemos classificar o personagem como anti-herói, herói ou como vilão. O que mais nos interessa, neste caso, é compreender toda a jornada que Robin Hood teve até o presente momento e como que sua vida na terra se concluirá. Jackman impõe certo peso dramático na personagem o que nos faz compreender também que seus 57 anos de idade possuem um peso artístico para o sucesso desta obra.
É importante revisitarmos um pouco a trajetória do cineasta Sarnoski e tentar captar a essência de suas lentes para construir A Morte de Robin Hood. Ele está por trás do aclamado Pig: A Vingança (2021) e nós o conhecemos de Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024). Não só na direção, mas Sarnoski também é um excelente roteirista o que contribui para que seu trabalho acabe ganhando notoriedade. A lenda do folclore britânico desta vez ganha muito mais peso sombrio e possui um fio condutor emocionalmente bastante inteligente. Jackman não entrega um Robin Hood decadente, mas um personagem que experimenta abandonar a decadência para ter um fim mais digno de tudo o que viveu.
Ninguém está feliz neste filme e isso nos incomoda do início ao fim. Robin Hood está exilado; a abadessa de Jodie Comer parece isolada cuidando dos que dela se aproxima; Arthur (Noah Jupe) é um adolescente em busca de vingança; o leproso (Murray Bartlett) vive com os dias contados e já se convenceu de que terá um fim triste; Little João (Bill Skarsgard) é alguém que vive sem nome e sem identidade; e, Margaret (Faith Delaney) é uma órfã vulnerável. Em cada personalidade fragmentada e frágil como essas, é possível construir um retrato humano do que o sofrimento provoca em nós. A solidão, a doença, os pecados, os crimes que cometemos, as escolhas erradas que tomamos, tudo isso gera consequências nas quais precisamos, ou nos redimir ou carregá-las como o fardo da culpa sobre os ombros.
O filme que é distribuído pela A24 é uma grata surpresa para nós neste ano de 2026. Sua fotografia é esplendorosa. Os diálogos são profundos e atravessam a gente. A reflexão que o filme gera é a de desmistificar histórias e contos que no fundo não refletem a real vivência que se teve. O cansaço e a velhice de Robin Hood não representam apenas a fugacidade da vida, mas trazem escopo para refletirmos se, de fato, toda a vida que tivemos e tudo o que construímos até então, valeu a pena. Aí surge o elemento da falsidade e da mentira: desta vez a luta do personagem é mais interna e mais difícil de ser atingida por uma flecha disparada do próprio arco.
Mais intimista, sensível, contemplativo. Menos ousado, menos barulhento, com menos ritmo. Abandonamos as peripécias do personagem que pulava por sobre telhados das vilas, que espalhava moedas de prata aos pobres camponeses e as lutas coreografadas contra os soldados da corte. Assistimos, nos primeiros minutos do filme uma morte violenta e sem precedentes por um Robin Hood desgostoso e que não aceita ser importunado em seu exílio. O diálogo entre os personagens de Jackman e de Skarsgard não é uma conversa entre amigos eu se gostam, mas entre conhecidos que têm alguma estima um pelo outro. A morte de Little João, por exemplo, atinge Robin Hood, mas não o desvia do caminho do perdão.
O caminho final do filme é a descoberta da paz, mais que a do perdão. E cada personagem a encontra de sua maneira: não importa se você é um assassino, ou se é um órfão que assistiu a morte dos pais, ou se ainda é um leproso que não possui mais perspectivas de vida, diante de cada detalhe da vida, com seus desafios e à sua maneira, a paz é possível. Nesse caminho pacificador costumamos encontrar mãos que nos guiam – neste caso é o da abadessa (Comer), que veste esta personagem como alguém que também precisa encontrar a paz, nem que seja, fazendo o mesmo por quem ela não conhece. No fim das contas, o filme é uma história cruel, mas com redenção: há um belo futuro para cada um de nós. A vida é real e a paz é possível.
Por Dione Afonso | jornalista.