As obras que compõem a saga literária As Crônicas de Nárnia, criada por C. S. Lewis [1898-1963], foram escritas durante a década de 1950[1]. Os livros encantam gerações de leitores por narrarem a existência de um universo mágico surpreendente e original. Lewis é um autor respeitado, cristão e que possui uma vasta experiência com a literatura e com sua religião. Além de ser uma literatura infanto-juvenil, os sete volumes[2] das Crônicas de Nárnia apresentam uma rica intertextualidade com o universo da Teologia e com a Bíblia, trazendo alguns paralelos com o cristianismo. Ainda mais: Lewis também explora o universo heróico em que os protagonistas são marcados pela famosa “jornada do herói” que algumas releituras cinematográficas nos apresentam.
Entre as tantas releituras e interpretações que estes livros ganharam nestes quase 80 anos, As Crônicas de Nárnia tiveram diversas adaptações. Sem termos espaço para dissecar cada uma dessas releituras que a história já nos apresentou, este breve artigo sentiu-se no dever em apresentar alguns insights a respeito do primeiro vislumbre que Aslan recebe pelas lentes da cineasta Greta Gerwig. Indicada ao Oscar, Gerwig está à frente de um projeto ambicioso encabeçado pela Netflix: adaptar toda a saga literária de C. S. Lewis. Cineasta revelou, em entrevista, que os livros foram grandes companhias de sua infância e que ela enxerga o autor como “um grande pensador” e, que, portanto, sente-se “um pouco aterrorizada”, exigindo de si mesma um “cuidado extra” para entregar um trabalho “com sabedoria e experiência”.
O primeiro filme, Nárnia: O Sobrinho do Mago, já divulgou suas primeiras imagens trazendo a primeira dupla de crianças que conhecerão o fantástico “mundo de Nárnia”. A história narra as experiências de Gregory e Polly (vividos por David McKenna e Beatrice Campbell) que, com a ajuda do Tio André, um mago (Daniel Craig), viajarão para mundos alternativos com a auxílios de anéis mágicos, e, assim, conhecerão Nárnia e testemunharam a criação daquele mundo através de Aslan. Aslan, um leão, traz uma simbologia central para toda a história. É inevitável não fazer a comparação do personagem com o próprio Jesus, narrado nas experiências bíblicas. E, como sabemos que o próprio autor comunga da Teologia Cristã, Lewis incorpora estes conceitos em suas obras. Voltando às imagens divulgadas, o primeiro vislumbre do Leão nos chama muito atenção, ao nos apresentar algo diferente de tudo o que já vimos.
A nova adaptação traz um Leão rico em detalhes: olhos de cores diferentes (azul e âmbar); textura física misturando penas, escamas, alguns minerais, folhas, texturas que imitam pele e tecido e fios semelhantes a tons neon. Este Aslan é instigante, reflexivo, misterioso e místico. Mesmo não sabendo como será todo o seu corpo na totalidade, pois a imagem apresenta apenas um recorte de seu rosto, já dá pra imaginar que estaremos diante de um ser incomum, mítico, divino. Não é um Leão comum, natural como nos filmes anteriores [2005-2010], mas um Leão mágico, diferente, ao mesmo tempo que é acolhedor e próximo. Aslan é o primeiro ser vivente de Nárnia, na verdade, ele existe antes de Nárnia. Nárnia passa a existir a partir de seu desejo. Sua canção põe ordem ao caos que se estabelece diante de ti e, quando o caos é extinguido, temos a harmonia assim como é harmonia o próprio Aslan, com tudo o que seu ser representa.
O Aslan de Gerwig traz a simbologia da totalidade: todas as criaturas se encontram e vivem no criador. O criador, carrega em si cada marca, identidade, forma, natureza e essência de cada criatura. O mundo criado participa de sua existência, inclusive a criatura humana. O olho azul se assemelha a um olho humano, representando ali a humanidade. O Aslan de Gerwig carrega a espiritualidade do criador bíblico. Aquele que em tudo habita, em tudo está e vive. Um ser espiritual, que carrega a essência do todo. Aslan, o criador, carrega em si mesmo toda a criação. Não só tudo foi criado a partir dele, como tudo o que foi criado, foi feito por ele e está nele, habita nele, é ele. Essa imagem que atribuímos a Aslan encontra no Deus Cristão a mesma simbologia do Ato Criador. A Bíblia narra a experiência da Criação como ato divino e, do nada (ex nihilo), tudo foi feito, tudo passou a existir.
Liam Neeson, ator com uma filmografia de respeito entre longa cômicos e dramas que o levaram a concorrer o Oscar como A Lista de Schindler [Steven Spielberg, 1993] foi o responsável em dar voz a Aslan nas duas adaptações de Andrew Adamson [2005 e 2008] e na de Michael Apted [2015]. A versatilidade de Neeson nos entregou um ser mais natural e comum, que participa de nosso cotidiano com respeito e admiração. Por mais que sejam bons filmes, a crítica não os apontou com brilhantismo, dado que as versões não se preocuparam muito em trazer os escritos literários com fidelidade. O filme de 2005 adapta o segundo livro da saga, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, e, nele nós temos um Aslan já maturado, que nos ensinará sobre o sacrifício, o perdão, e a reconciliação. Também falará sobre amizade, família e confiança.
Quando Greta Gerwig inicia a campanha pelo cast do elenco de seu primeiro filme, a sua preocupação em apresentar um Aslan que respeite com tamanha dignidade as célebres páginas de Lewis, ela começa a sua busca por artistas que saibam interpretar de maneira genuína, ao mesmo tempo com poder e força e sensibilidade e inocência. Gerwig chega a afirmar que “esta lista não é muito longa”. Portanto, termos a voz de Meryl Streep em Aslan é uma escolha poderosa. Greta afirma que “queria alguém que fosse profundo, mas não pretensioso. Que tivesse imponência, mas não uma seriedade mórbida. Alguém que conseguisse transmitir profundidade e emoção, assomo como alegria e encantamento”.
Parece que a cineasta conseguiu captar a essência de Aslan. Ela defende Streep como a melhor escolha que fez: “Queria alguém com mais de 70 anos, para que houvesse uma sabedoria adquirida com a experiência, mas que também tivesse a capacidade de se maravilhar com as coisas de maneira genuína, como uma criança. E que também fosse um dos maiores intérpretes de todos os tempos”. A transição de Neeson para Streep nos permitirá perceber um crescente na voz, na atuação, na força de presença e na versatilidade, tanto do personagem, quanto dos atores que já tiveram a oportunidade de vivenciar tal experiência. Com lançamento agendado para 12 de fevereiro de 2027, antes de ir para o streaming, Nárnia: O Sobrinho do Mago irá para os cinemas e terá distribuição em parceria com a Sony Pictures. Vale ressaltar que a diretora lutou para que o longa fosse para os cinemas, defendendo a Sétima Arte diante de polêmicas que defendiam o fim do cinema numa supervalorização do streaming.
Referências:
LEWIS, C. S. - As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Trad.: Paulo Mendes Campos. Martins Fontes: São Paulo, 2002.
LEWIS, C. S. - As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago. Trad.: Paulo Mendes Campos. Martins Fontes: São Paulo, 2002.
SERPA, T; ROCHA, C. F.; SOARES, V. P. - A Construção da personagem Aslan e suas relações com o universo cristão. In.: Ilha do Deserto, v. 71, nº 1, p. 077-102. Florianópolis, jan/abr 2018.
SOARES, V. A.; LOPES, C. C. - A presença dos atributos na personagem Aslan, da obra As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Disponível em: https://eventoscopq.mackenzie.br/jornada/pt_BR/article/view/649. Acesso em 22 de setembro de 2026.
[1] O primeiro volume publicado foi em 1950: “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. E o último volume data de 1956, com o título “A Última Batalha”.
[2] Em ordem cronológica (e não de publicação), seguem-se: 1. “O Sobrinho do Mago” (1955); 2. “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” (1950); 3. “O Cavalo e Seu Menino” (1954); 4. “Príncipe Caspian” (1951); 5. “A Viagem do Peregrino da Alvorada” (1952); 6. “A Cadeira de Prata” (1953); e, 7. “A Última Batalha” (1956).
Por Dione Afonso, jornalista
22 de setembro de 2026