Algumas produções da TV e do cinema tem se convergido para uma temática bastante explorada e que, curiosamente rende bons resultados lucrativos: os ricos. Enquanto Mike White faz de The White Lotus (2021) uma narrativa escrupulosa regada a muito dinheiro, o cineasta Ruben Östlund fez de Triângulo da Tristeza (2022) a oportunidade perfeita para explorar o que ronda essa nata social que, por ocupar certo status, sentem-se donos de tudo e de todos. Na TV ainda temos a aclamada Succession (2018) e no cinema, O Lobo de Wall Street (2013) é um clássico que se tornou um divisor de águas na indústria do entretenimento com tal temática.
Agora é a vez de Treta, minissérie criada por Lee Sung Jin. Ali Wong; Steven Yeun e Young Mazino, protagonizam a jornada de famílias que precisam lidar com o stress cotidiano. Wong e Yeun são dois adultos que fazem coisas de adultos, permitem-se serem adultos e tumultuam a vida alheia. A minissérie é impactante e profunda ao trazer temáticas muito corriqueiras, mas que nunca ninguém havia parado para pensar e refletir sobre o assunto. Jin, criador e roteirista da história consegue equilibrar certo humor catártico com drama e seriedade. Nenhuma das ações que são praticadas por nós é livre de consequências, o que muda é como lidamos com elas.
Em outra ocasião, neste site, havíamos nos perguntado “por que os ricos continuam vendendo tanto?”. Claro que a pergunta pode ser, num primeiro momento, fruto de uma leve discussão, mas, depois vai se percebendo a profundidade deste tema. O contrário dela não apresenta uma resposta negativa, ou menos impactante, mas o questionamento, talvez, seja necessário quando se percebe que continuamos a manter no palco, quem já é privilegiado fora dele. Danny (Yeun) e Amy (Wong) entregam cenas regadas a oportunismo, diálogos espinhosos e com toques de sarcasmo e verdade.
Parece que os ricos também têm problemas e eles também passam por dias nada produtivos. Danny e Amy se encontram num dia como esse: em que nada deu certo, todos os esforços só resultaram em fracasso e quando nada mais podia piorar, no último minuto do dia, pode ser que uma discussão num estacionamento pode “derramar a água do balde” de vez. A vingança é o sentimento que gira em torno dos 10 episódios desta primeira temporada. O mais curioso, e aqui habita o tom cômico, é que a vingança não tem um fundamento objetivo e nem encontra suporte o suficiente para se manter. No fim, é como se o ato vingativo fosse contra si próprio.
Há a diferença de classe social também. Parece-nos que Amy é uma mulher importante, empresária, respeitada em seu ramo, enquanto Danny é um trabalho que lida com serviço braçal, pesado, de pouco retorno, mas que enfrenta uma crise de serviço. Ele, precisa fazer seu negócio decolar e ela, precisa resolver um problema e parar de perder dinheiro. Para completar este cenário, Danny ainda tem um irmão mais novo que não parece se preocupar muito com o trabalho e vive tentando dar golpes na internet. Viver o dia todo na piscina e não participar da vida de trabalho com o irmão.
Treta acerta em cheio quando trata do banal e cotidiano com protagonismo. Não é um grande evento que rende boas histórias. O que faz boas histórias é a forma de conta-las. E nisso, Jin é bom! As situações triviais de cada personagem acabam virando uma grande bola de neve que vai desmoronando a vida de um por um. Amy, por exemplo, enquanto luta em seu negócio empresarial, no ramo das artes florais, seu marido vive somente em casa cuidando da filha do casal. Isso já gera tensão familiar e conjugal. Do outro lado, Danny, é sozinho porque não consegue conciliar com o irmão o trabalho, e isso também faz surgir conflitos dentro de casa. Danny precisa ter dinheiro o suficiente para construir a casa dos pais que ainda estão na Coreia.
Se nós não cuidamos das pequenas situações, se não fizermos bem as pequenas coisas ou se não nos preocuparmos com o trivial, a grande engrenagem pode parar de rodar e cair. É assim que funciona o roteiro de Treta, e funciona muito bem. A série não se preocupa em solucionar o problema no final, e nem nos apresenta uma mágica em que todos seguem suas vidas normalmente. Muito pelo contrário, as consequências de nossos atos permanecem e podem ficar eternamente se não se resolverem com precisão. Aquela simples briga no estacionamento é apenas um estopim, aquela pólvora que só estava aguardando um fiasco pequeno de fogo aceso para que tudo pudesse se desenrolar numa série de brigas, discussões, acidentes, quase mortes e, enfim... a vida dia após dia.
Por Dione Afonso | Jornalista