O tempo em que estamos vivendo é profundamente marcado pela crise de sentido, o vazio que lateja cada consciência humana que se perde na própria escassez do sentido pela vida. O filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), ao traçar os fundamentos da construção humana, estes culminam na Categoria de Pessoa, e ser pessoa – para Vaz – é ser integral, completa, construída e aberta ao horizonte de possibilidades. A objetividade nos firma como indivíduos que se categorizam com sua própria identidade no mundo e na história. A subjetividade é sobre a própria consciência formada e íntegra. Enquanto corpo, alma e espírito o ser humano se desenvolve e se entende se compreende como indivíduo. E a Categoria de Intersubjetividade nos põe em relação. Este indivíduo “vê” outros que, na individualidade de cada um, provocam encontro. Vê o outro, sente o outro, busca o outro e constrói relações, afetos, comunidade e fraternidade.
O ser humano é isso: completo, inteiro, íntegro e aberto à transcendência. A um grande horizonte de sentido e novas possibilidades. Hoje o que vemos é uma humanidade que, sem maturidade e pobre de consciência crítica, cai em crise, perde-se no caminho da vida e esvazia-se de sua espiritualidade. Aquela objetividade perde valor humano e tudo vira mercado, lucro, objetificação de coisas e até de pessoas. A crise é o sintoma interno de que houve fragmentação naquela tríade categorizante – corpo/alma/espírito. E, com o interno mal, não há relação possível e saudável externamente. Neste caso, valoriza-se a imanência das efemeridades e abraça o passageiro, pois tudo aquilo que insiste em permanecer é um assombro e amedronta o indivíduo que se perde no niilismo e na finitude. Liquidez nas relações, no amor, no medo, como afirmou Zygmunt Bauman e fuga social, perda de valor e de sentidos como nos diz Byung Chul-Han.
Richard Gadd, depois de seu trabalho com Bebê Rena nos dá outro soco no estômago com a minissérie Pela Metade. Desta vez, seu projeto está na HBO Max. Com 6 episódios, Gadd assume o seu lugar de criador, roteirista, produtor, diretor e ainda atua como protagonista. Ao seu lado Jamie Bell, Neve McIntosh, Charlie de Melo, Anjli Mohindra, Mitchell Robertson, Kate Robson-Stuart e Stuart Campbell completam o elenco. Enfrentamos o drama do esvaziamento humano de sentido; a masculinidade tóxica, mas que ainda persiste em se sustentar – tem até curso para isso, imaginem...; violência cibernética; tentativas de superação pós-humana... Essa lista pode aumentar. A minissérie conta a história de Niall Kennedy e de Ruben Pallister que crescem juntos como irmãos.
Toda a narrativa televisiva nos faz repensar o humano com suas questões. Desde as internas, como os afetos, a intimidade, a formação da consciência, os desejos, sonhos... Até ao que se provoca externamente, como as relações, os amores, o sexo, as opções de vida, o trabalho, a escola e faculdade, as escolhas... Conhecemos Niall e Ruben em duas fases da vida: quando jovens, Niall (Mitchell Robertson) sonha com o seu futuro de escritor. Quer ingressar na faculdade, explorar sua habilidade com a escrita, publicar seu livro. Parece um bom plano, um projeto de vida que parece completo, eficaz e próspero. Nada poderia dar errado, não é mesmo? Bom, “a relação de Niall com o mundo” até poderia estar nos conformes, contudo, é nessa “forma do ser-no-mundo como autoexpressão (...) que implica o sujeito na forma do ser-com-outro” (Lima Vaz, 1992). Nesse ponto, entra Ruben (Stuart Campbell), um jovem bastante desequilibrado e que não se permite ser fraco. Carrega o estereótipo do homem macho, forte, bruto, mandão, controlador, dono de si e, portanto, “inatingível”.
As categorias antropológicas do filósofo Lima Vaz nos ajudam a compreender de forma mais ilustrada o que a minissérie tenta retratar. Dois jovens homens que não se permitem ser atingidos por aquilo que os enfraquece porque já estão fracos demais, feridos demais para se permitirem tão flagelo social. Niall e Ruben não reconhecem o “outro como outro” porque são incapazes de se reconhecerem. A identidade está fragmentada, a consciência ferida e a alma/corpo/espírito estão desestruturados. Na linguagem de Lima Vaz, o “encontro humano” aqui só será possível com o reconhecimento de cada um como indivíduo, mesmo que esse sujeito esteja frágil demais. A fragilidade também é “combustível” para se reconstruir, reconectar, para se reconhecer. “A categoria de intersubjetividade deve abrigar, pois, de alguma maneira ou, mais exatamente, dialetizar esse paradoxo do encontro humano que é sempre, fundamentalmente, um encontro entre sujeitos e, como tal, um encontro espiritual” (Lima Vaz, 1992).
Por mais que na Categoria de Pessoa tudo se completa e todo o pensamento de Lima Vaz culmina, é possível pensar na incompletude do ser, porque aberto ao horizonte transcendental, é neste limiar das infinitas possibilidades que nos completamos. Lima Vaz fala da “primazia do outro” que pode entrar em choque estrutural do sujeito humano. Os desencontros e a falta de abertura aos afetos ao outro que há entre Ruben e Niall são reflexos desta “submissão” e certa falta de liberdade. Este “eu” sujeito é singular, mas é dialético, relacional, afeto. Assim também como o “outro-eu” também o é. Evoca-se aqui a “identidade na diferença” que nos permite criar uma relação livre e respeitosa no ser-com-o-outro. Não havia liberdade relacional entre os protagonistas. Eles não eram livres para se permitirem abrir-se um ao outro, por mais próximos que fossem. Havia ali, do ponto de vista antropológico, uma questão ética a se resolver: a liberdade. E do ponto de vista humano-afetivo: a pessoa.
Podemos, portanto, afirmar que Pela Metade, por mais que seja um produto indigesto, ele retrata o quadro social do nosso tempo: a fragilidade da pessoa, dado a fragmentação de seu desenvolvimento integral. A geração dos anos 2000 para cá vem negociando valores que nunca deveriam ser submetidos à lógica da compra e troca: educação básica de qualidade; o hábito da leitura crítica; família; cultura apurada; fraternidade e convivência; liberdade de ir e vir... são elementos que estão desaparecendo de nossa geração atual. O resultado disso é essa imaturidade humana presente em jovens mentes de cabeça vazia, ou de homens e mulheres que vivem aprisionados na própria consciência por temerem dizer o que pensam e sentem. A sociedade hoje é um ringue de luta entre aquele que quer se sobrepor e aquele que detém o máximo de poder possível para controlar e manipular todos ao seu redor. Para Lima Vaz, se estivesse hoje entre nós, isso o levaria a repensar a ética do saber e o “reconhecimento do outro” neste horizonte de possibilidades.
Por Dione Afonso | jornalista