21 Jul
21Jul

A 78ª edição do Emmy Awards divulgou seus indicados nas Categorias que disputam os melhores da TV. E, todos os anos, quando a lista é anunciada, surge a pergunta a respeito dos gêneros cômicos e dos grandes dramas. Em uma linha geral, já consagrada pela história, o primeiro elemento que considera uma produção televisiva como comédia é a sua duração dos episódios. Eles giram em torno dos 30 a 40 minutos cada um. Depois vem o que já é de comum acordo entre nós: o tom, o ritmo narrativo, a construção dos personagens, que geralmente é caótica e encharcada de elementos do humor, seja da risada gratuita ou daquele humor ácido, que utiliza do sarcasmo, para desconstruir a normalidade da narrativa. Portanto, não é incomum percebermos certa estranheza quando encontramos uma produção sobrecarregada no suspense ou nos elementos sombrios e sobrenaturais sendo classificada como comédia. Afinal, para nos fazer rir, uma obra não precisa ter a piada ali explícita e em plena luz do dia. 

O humor também é capaz de penetrar em realidades sombrias, jornadas de suspense e até numa série em que um assassino conhecido como O Homem do Saco persegue jovens indefesas numa ilha afastada do centro da cidade. Inspirada na Consagrada Parks and Recreation, Katie Dippold, roteirista e criadora de O Segredo de Widow’s Bay apresenta-nos uma ambientação fictícia em que o medo que nos faz rir se torna a sua principal artimanha para fazer de Widow’s Bay, uma ilha afastada de tudo e de todos, aprisionada por elementos sobrenaturais e com uma população confusa e fora do comum. A série traz o protagonismo de Matthew Rhys como o prefeito da dita ilha, Tom Lofts. Kingston Rumi Southwick; Stephen Root; Dale Dickey; Kevin Carroll; Jeff Hiller e Kate O'Flynn se unem ao elenco. 


A vida é um caos 

O primeiro elemento que chama a nossa atenção está concentrado em toda a ambientação da prefeitura e de quem cerca o prefeito Lofts. A escalação de personagens emblemáticos, fora do convencional como a patética, confusa e insegura pessoalmente, Patrícia (O’Flynn), uma espécie de Ministra da Cultura e Gerente da Arte e Lazer da ilha. Por mais que a construção de sua personagem seja algo incrível, muito bem escrita por Dippold, ela é chata, enigmática, ao mesmo tempo, e uma mulher sofrida, atingida por um tempo que não foi favorável a ela. Ela é constantemente ridicularizada pelas outras garotas da ilha e nem mesmo seu status sociopolítico na prefeitura concedeu a ela um mínimo de respeito e credibilidade. Aliás, credibilidade é um elemento que ninguém – nem mesmo o prefeito – possuem naquele lugar. Já temos, por convenção, em nosso constructo social, que para ocupar certos cargos diante de uma cidade, é preciso apresentar certas qualidades, o que, ninguém ali tem. 

Isso fica ainda mais evidente quando conhecemos a Secretária de Gabinete do prefeito, uma senhora de mais de 80 anos, já com a memória comprometida pelo tempo e que não cumpre com as exigências que o departamento dela exige. A mesma coisa se observa no personagem de Hiller, também um servidor público que, aparentemente não possui as qualidades necessárias para comandar seu Departamento. A situação fica mais confusa quando esta ambientação se estende para o restante da ilha. Não há uma organização que faça sentido naquele lugar. Aliás, é aqui que o roteiro de Dippold acerta em cheio: desconstruir o que temos como seguro, correto e que faça algum sentido é a sua maior engrenagem para que toda a proposta de Widow’s Bay faça sentido para nós. Os elementos sobrenaturais que surgem servem de aparato anticlímax apenas para corroborar o que não faria sentido se não tivesse algo em que nos apoiar. 

Portanto, naquela louca ambição que o prefeito tem de “revelar Widow’s Bay” para o mundo, para o centro urbano, desejoso de transformar a ilha num local turístico, a série, em sua primeira temporada se sustenta muito bem. É muito bem construído os opostos entre Lofts e o piloto de barco Wyck (Root): de um lado temos um homem descrente, que se recusa acreditar que as lendas sombrias que a ilha transmitiu de geração em geração são conversas fiadas para afastar o restante do mundo; e, de outro, Wyck é alguém que já presenciou cenas sobrenaturais no passado e que insiste em defender a população da ilha, pois, novos tempos sombrios e perigosos estão surgindo e quem não acreditar neles estará fadado à morte. Com 19 indicações ao Emmy, a série concorre na Categoria de Melhor Série de Comédia. No elenco, Rhys concorre como Melhor Ator em Série de Comédia, além de outros nomes também concorrerem nas Categorias de Atuação. Direção; Roteiro; Categorias Técnicas e Direção de Arte também receberam indicações. A produção da Apple TV concorre com Abbott Elementary; O Urso; Hacks; Margô Está Em Apuros; Ninguém Quer e Only Murders in the Building.



Por Dione Afonso  |  Jornalista.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.