A primeira produção que o audiovisual dedica à artista com sua única década de carreira em vida chega, com quatro episódios, 05 anos depois de sua trágica morte. Marília Mendonça, reconhecida como a Rainha da Sofrência, fez de sua breve carreira um ato resistente contra uma indústria predominantemente masculina, abrindo portas para as grandes mulheres da música popular brasileira, sobretudo do sertanejo. Marília Mendonça é, sem dúvidas, depois de Roberta Miranda, uma das poucas mulheres que furou uma bolha comercial que impera há anos na indústria fonográfica. Esse lado feminista de Marília é tão significativo que a série revelou que quando a artista brasileira passou a cantora pop Lady Gaga nos streamings, Marília Mendonça não celebrou, pois, segundo ela, “ela não estava concorrendo com outra mulher. Reconhecemos, sim, o sucesso, ficamos felizes, mas não é uma disputa com ela, é uma soma: mais uma mulher no topo”.
Na série, a roteirista Gabriela Altaf debruça sobre a intimidade da artista tendo acesso a um acervo rico e pessoal de toda a família. A série expõe para fãs e todo o público um lado que Marília tinha longe dos palcos. Família, amigos, o trabalho de bastidor, além de revelar o seu processo criativo. É impressionante o fato de Marília conseguir compor grandes sucessos em menos e 30 minutos. Assim como também era algo incomum cada música lançada explodir nos streamings e na boca do povo. Os quatro episódios contam com os relatos da mãe Dona Ruth, dos irmãos João Gustavo, Mário Mendonça Jr. e Laura Mendonça, do ex-namorado Murilo Huff, além de artistas como Maiara & Maraisa, Zezé Di Camargo, Paula Fernandes e Wander Oliveira.
Marília Mendonça morreu num trágico acidente de avião em 05 de novembro de 2021. Cinco anos nos separam deste dia. Estamos diante da primeira produção que se debruça a contar a meteórica jornada de sucesso de uma artista que literalmente parou o Brasil e até alguns outros países ao redor do mundo. Uma de suas turnês mais marcantes foi quando ela lançou o projeto “Em Todos Os Cantos”, na qual a artista, sem avisar, decidia realizar um show livre no centro das capitais brasileiras. Ela conseguiu visitar 18 capitais. Segundo a série, a equipe e a própria cantora anunciavam 10 horas antes que estaria fazendo um show a céu aberto na sua cidade. Isso foi uma grande virada de chave para a carreira de Marília Mendonça num momento em que suas músicas precisavam ganhar mais a boca do público. Marília não cantava simplesmente letras vazias e histórias de faz-de-conta, mas ela cantava a resistência, a feminilidade, a denúncia, o amor, a amizade a superação...
Hoje, seu nome é mencionado como a cantora mulher mais ouvida do Brasil. Marília abre portas para novos nomes femininos da música sertaneja. O reconhecimento exposto pela cantora Paula Fernandes, ao mencionar que Marília revolucionou este mercado, a presenta da dupla Maiara e Maraísa, que também usufruiu desta jornada e toda a sua equipe, que, coordenada 95% por homens, também reconhecem a força ativa e descontrolada de uma mulher, ainda muito jovem, mas com ideias maduras e posturas firmes diante do sucesso que se abria diante de seu caminho. “Infiel”; “Todo Mundo Vai Sofrer”; “Cupido Gari”; “Troca de Calçada” são seus maiores sucessos e a série é muito feliz ao nos proporcionar como que se dava o processo criativo na qual as letras dessas canções surgiam.
Por fim, a série chega ao projeto “As Patroas”, uma produção em conjunto com a dupla Maiara e Maraísa que estava no auge. O sucesso “Todo Mundo Menos Você” permaneceu em primeiro lugar nas plataformas de áudio por meses após o falecimento da cantora e compositora. Todo o marketing, colocando lágrimas de ouro do rosto das três personalidades seria, então, o grande xeque-mate de uma carreira feminina na qual as mulheres, de fato, iriam mostrar a que vieram e do que seriam capazes. Algumas críticas chegaram a comparar o projeto “As Patroas” com aquele dos “Amigos”, da música sertaneja que permaneceu ativo de 1995 a 1998 e depois da morte do cantor Leandro, da dupla com Leonardo, o projeto voltou numa turnê especial.
É importante destacar que, vinda de uma família muito pobre e que chegou a passar dificuldades, Marília Mendonça foi descoberta ainda na adolescência. O fato de ser muito nova e de ser mulher, isso a impediu de se deslanchar com mais liberdade em sua carreira. Quando Marília Mendonça apresentava suas canções aos produtores, era difícil dela convencê-los de que era ela mesma quem compunha, pois, como convencer homens adultos e com anos de experiência que uma jovem de 15, 16, 17 anos era capaz de compor canções como “Minha Herança”, escrita aos 12 anos e que é sucesso na voz de João Neto e Frederico. Ou ainda, “Cuida Bem Dela”, na voz de Henrique e Juliano; “É Com Ela Que Estou”, por Cristiano Araújo... e tantas outras que foram se eternizando nas grandes vozes da música sertaneja.
Marília Mendonça e todo o seu movimento e sua presença na indústria musical do Brasil foi mostrando que esse caminho é também trilhado por grandes mulheres que já não suportam mais ouvir músicas machistas e um sertanejo que despreza e só joga as mulheres para baixo. Transforma-as em objeto sexual e as ofende como se a única coisa que elas têm para oferecer é uma cama aquecida e comida na mesa. O Prime Vídeo ainda irá lançar o filme sobre a artista coroando a série documental. Para nós, além da saudade fica uma jornada que ela iniciou e que muitas outras tantas mulheres deverão continuar conquistando cada vez mais espaço dentro do mercado.
Por Dione Afonso | jornalista.