O escritor de renome Stephen King é um grande contador de histórias que suscitam em nós muitos calafrios e aquela ansiosa sensação de medo e tensões diante de personagens frios, tenebrosos, alguns seres humanos comuns, outros nem tanto. Muitos de seus contos e livros já ganharam as adaptações em grandes telas, mas também para as plataformas digitais, como os streamings e canais limitados para a TV. O romance original Carrie, a Estranha foi publicado em 1974. Conta-se que King chegou a descartar o manuscrito, jogando-o ao lixo por não ter gostado do que escreveu. Hoje a obra possui, pelo menos 5 grandes adaptações para as telonas destacando o clássico de 1976 dirigido por Brian De Palma apresentando a atriz Sissy Spaeck como a primeira mulher a dar vida à Carrie White.
Em 1999 a cineasta Katt Shea, com o auxílio do roteiro de Rafael Moreu dirigiu A Maldição de Carrie, uma sequência não-oficial que foca na irmã de Carrie, Rachel Lang (Emily Bergl). Um remake foi produzido em 2002 com Angela Bettis dando vida à Carrie em filme de David Carson e em 2013, Chloe Grace Moretz também deu vida à Carrie White em filme dirigido pela Kimberly Pierce. Agora, é a vez de Mike Flanagan numa nova adaptação e, desta vez, no formato de série de TV. Quem dá vida à Carrie é a jovem atriz Summer H. Howell. Para compor o elenco, contamos com grandes nomes que já conhecemos das excelentes criações de Flanagan: Samatha Sloyan; Alison Thornton; Josie Totah; o incrível Matthew Lillard; Amber Midthunder; Siena Agudong; Joel Oulette; Thalia Dudek; Rahul Kohli e Kate Siegel.
Quando nos deparamos com narrativas como a Antologia Monstros que Ryan Murphy encabeça atualmente, nosso convencimento de que os ditos “monstros” que convivem entre nós na sociedade são criados por nossa própria arrogância, desejo de isolamento, anseio por poder e por controlar os mais fracos e vulneráveis. O que Mike Flanagan faz, e sempre faz muito bem, é atualizar estas narrativas e nos colocar num ponto importante de ignição, motivada por uma pergunta central: quem, de fato são os monstros e quem os alimentam? O cineasta sabe explorar o sensível em sua filmografia, explora o luto e aborda os traumas dessa profunda tristeza fortalecida na dor da ausência, como vimos em A Maldição da Residência Hill. Explora a falta de limites com o sobrenatural em Missa da Meia-Noite para ensinar sobre fanatismo religioso e sobre preconceito e outras culturas desumanas como em A Maldição da Mansão Bly.
Trazer Carrie, a Estranha para o terror contemporâneo é uma atualização muito bem-quista, e, pelas mãos de Flanagan, a obra original de King ganha um frescor atual para uma geração nova e antenada. Para quem já havia trabalhado em Doutor Sono e A Vida de Chuck, ambos textos de Stephen, o cineasta já es encontra familiarizado com o estilo literário do autor. Não se trata, apenas de rever um clássico sendo recontado mais uma vez, mas de conferir como que cenas que encontraram um marco na história do cinema de terror sendo lidas e interpretadas em novos pontos de vista e por novos olhares cinematográficos. Mike Flanagan tem a sua marca original, e uma delas é conferir sua assinatura que consiste em nos assustar em pequenos detalhes e nos encantar com o minimalismo consciente e essencial nas telas.
Flanagan não se contenta apenas em reconstruir uma narrativa já presente no nosso consciente cultural, mas ele se aproveita de clássicas histórias para nos lembrar que ainda hoje, o terror habita em nossas ações e está presente em nossos gestos. A censura de livros e a da liberdade de imprensa, o uso manipulador da tecnologia, a violação dos direitos humanos, a religião sendo distorcida, o controle de armas, a inclusão LGBTQIA+ e tantos outros conflitos que nos distanciam dos outros e nos colocam numa posição social assustadora: os “monstros” que estamos produzindo. Vale muito a pena conferir o trabalho de Mike Flanagan de perto. Seus parâmetros para construir e recontar histórias são sempre atuais e muito bem-vindos e acolhidos a uma geração que curte desafios e não foge de boas e belas aventuras.
Por Dione Afonso, jornalista.