12 Sep
12Sep

Tanto para os cristãos, quanto para aqueles que afirmam não seguir algum tipo de fé ou uma religião, Jesus de Nazaré não deixa de ser uma figura que questiona a todos. Seja dentro do campo religioso ou, seguindo as diretrizes históricas, Jesus é uma personagem de grande fama. Há inúmeras tentativas de narrar e recontar sua história. Atualmente, e de grande sucesso, a série de TV The Chosen, criada, dirigida e coescrita pelo cineasta estadunidense Dallas Jenkins tem roubado a cena e agradado grande parte do público. Claro que a produção explora em cheio o gênero do drama, o que angaria boa parte dos telespectadores, mas o que chama a atenção é que, ao se destacar sendo a primeira série televisiva que aborda a vida de Jesus em inúmeras temporadas, ela aborda a história do protagonista a partir do ponto de vista daqueles que o conheceram pessoalmente. Com a primeira temporada lançada em 2019, Jenkins já afirmou que a sétima será a última e que também contará com algumas exibições em salas de cinema. 

Outro grande sucesso foi em 2004, quando o cineasta Mel Gibson lançou o aclamado A Paixão de Cristo. Longa cuidou de detalhes muito específicos como utilizar o aramaico, que era a língua original da época e da cronologia histórica narrada pelos capítulos da Bíblia. Agora, o diretor trabalha na sequência, na qual irá narrar o episódio da ressurreição e que será lançado em 2027. Em A Última Tentação de Cristo, Martin Scorsese resolveu partir de outra narrativa. Filme adapta o romance de Nikos Kazantzákis e que Paul Schrader assumiu a tarefa em roteirizar a obra. A literatura mescla ficção com os relatos bíblicos. A linha cronológica não obedece a veracidade dos fatos, portanto, é preciso se despir do que já sabe para conseguir acompanhar a história. Há sentido narrativo, pois explora uma personagem de grande relevância histórica. 


Escolhas narrativas 

Scorsese trabalha com a presença de um narrador que nos conta a história na terceira pessoa. Este, onisciente, na versão dublada tem a voz do brasileiro Dráusio de Oliveira. No elenco, Willem Dafoe é Jesus; Verna Bloom faz Maria Madalena e Harvey Keitel é Judas Iscariotes. O apóstolo Pedro é vivido por Victor Argo; as irmãs de Lázaro, Maria e Martha são interpretadas por Randy Danson e Peggy Gornley, respectivamente. Lázaro por Tomas Arana e João Batista por Andre Gregory. Harry Dean Stanton é Saulo/Paulo de Tarso. Nesta versão da história de Jesus percebe-se uma relação muito próxima entre Jesus e Judas, muito mais do que a bíblia nos conta. Scorsese explora isso com muita delicadeza e faz com que esta amizade tenha um contexto bastante dúbio: até onde podemos confiar nos desejos humanos? 

Após a passagem pelo deserto, Jesus se encontra em casa. O filme dá a entender que José não vive mais, portanto, vemos Jesus no ofício da carpintaria. Como carpinteiro, Jesus aparece fabricando as cruzes que Roma utiliza para crucificar os que traem ou infringem as Leis. Num diálogo entre Judas e Jesus, a sensação que temos é que aquele que deveria ser a voz de Deus entre o povo, na verdade está traindo a sua fé ao oferecer para os inimigos a ferramenta da morte do próprio povo judeu. Jesus, humano como opta em ser, sofre perseguição e é atormentado por um dilema interno, psíquico e espiritual. O deserto não é apenas lugar de silêncio, oração e purificação, neste caso, também vira lugar de fuga, esconderijo e zona de conforto. 

Outra opção narrativa é o fato de não seguir os eventos bíblicos na ordem em que as páginas sacras oferecem. Por exemplo: o sermão da montanha acontece antes do batismo no rio Jordão; os Doze não são escolhidos por Jesus, eles simplesmente, por pura curiosidade, ou ouvi-lo pregar para a multidão, resolvem segui-lo enquanto der. A cena dos discursos parabólicos é muito bem dirigida, pois coloca o povo enfrentando Jesus, questiona-o e distorcem seus ensinamentos. Quando ele prega o amor, o povo entende violência e morte. A reunião dos Doze se dá de forma muito irreverente e vai de encontro com o que está narrado nos Evangelhos. Digamos que os relatos bíblicos romantizam uma cena que, na realidade, teria alguns desafios mais. 


Quem é Jesus? Da amizade às tentações cotidianas 

De antemão, é importante antecipar neste momento que há na história um plot twist assustador. A última tentação de Jesus é, talvez, as nossas tentações de cada dia. Para o escritor, esta é o desejo de ser normal, comum, viver como qualquer outra pessoa, não ter as grandes responsabilidades que um sistema, religião ou a própria sociedade espera que tenhamos. A última tentação de Jesus é a de negar a Cruz, negar o sofrimento, dizer não ao sacrifício pessoal, negar o próprio propósito e seguir seu mais íntimo desejo: amar, apaixonar-se, ser um homem comum, numa vida comum, entre pessoas comuns. A tentação maior surge do alto da Cruz, quando até mesmo o Filho de Deus questiona a onipresença do Criador, do Pai, do Todo-Poderoso. Esta é a brecha – segundo o roteiro – que o mal se vale para penetrar naquele coração humano e ferido. Maltratado, julgado, condenado, açoitado, despido de sua vestimenta e crucificado. 

Há uma frase no filme que diz: “o que está dentro de si é a bondade, mas o mal está do lado de fora, está no mundo, e nos rodeia e nos espreita a todo instante, querendo entrar”. A Cruz é uma sombra que nos persegue, nos espreita. Nela tudo será consumado e seremos postos à prova. Um outro detalhe que chama muito a nossa atenção é o episódio da Última Ceia. Nela não só os apóstolos participam, mas o roteiro adiciona as mulheres, Maria e Martha, Maria Madalena e Maria, a mãe de Jesus. Na cena em que Jesus traz Lázaro de volta à luz do dia, também há algo que nos questiona: Jesus não grita de imediato, mas sereno e calmo ele evoca a sabedoria dos profetas e o nome de Deus. Nesse instante, com um semblante assustado, a força poderosa de Deus é testemunhada. Jesus não se apresenta como o ser divino que a religião nos permite acreditar, mas ele é bem mais humano, mais “real” e suas ações e reações são espontâneas e sinceras. 

Chega no momento da crucifixão. O coração humano está ameaçado e vulnerável. Jesus está exposto à maldade humana e sobrenatural. Seu corpo está entregue e depende dele lutar contra a dor que sofre para não sucumbir aos desejos carnais e íntimos. Lançado nessa seara em que bem e mal, Deus e o Diabo disputam por um homem pregado na cruz, Jesus se permite deixar levar por uma imagem bondosa e generosa que o tira da cruz e o leva para um mundo sem dor, bonito. O mal já realizou sua tarefa e o Filho de Deus está entregue aos desejos próprios. Vive uma vida comum e feliz ao lado de esposa e filhos, mas uma vida falsa e que não está escrita em lugar nenhum. Nessa miragem arquitetada pelo Diabo, acontece um encontro confuso entre Jesus e Paulo. Um encontro enigmático onde Jerusalém é incendiada, o Templo é destruído, os cristãos são perseguidos e mortos. 


“A Última Tentação de Jesus” e as nossas tentações 

O filme de Martin Scorsese foi produzido pelos estúdios da Paramount. Contudo, não demorou muito para que o trabalho começasse a enfrentar alguns burburinhos e atritos por parte dos cristãos e de alguns grupos conservadores. Abandonado pela Paramount, a Universal Pictures resolveu acolher a obra, afinal, Scorsese não é qualquer nome dentro da indústria cinematográfica e hollywoodiana. A morte de Jesus, mais que uma queima de arquivo, trata-se claramente de uma forma de eliminar um concorrente político. Independente de sua crença, fé ou religião, ou se é daqueles que não seguem um grupo religioso, é difícil acreditar que Jesus morreu porque assim quis Deus. Ou pregar por aí que a morte de Jesus estava dentro dos propósitos divinos e que assim teria que acontecer. Isso parece-nos muito errado, inclusive. 

A morte de Jesus tem muito mais a ver com a ambição política, a ganância econômica e o medo religioso. Ambição, porque os fariseus estavam perdendo território. Eles percebiam que aquele nazareno, vindo de uma vila sem relevância, estava conquistando mais público que eles, eleitos entre os levitas, guardiões da Arca, donos e zeladores do Templo. Ganância, porque César sentiu-se ameaçado. A voz do rei/imperador estava sendo abafada pelos discursos missionários de Jesus. Prendê-lo e torturá-lo era uma forma de calar este tal profeta que dizia falar em nome do Deus verdadeiro, do Deus dos antepassados do povo judeu. Por fim, o medo religioso. Jesus “ia contra a Lei”. Colocava as normas de Moisés à prova e, por onde passava, ensinava ao povo que a lei precisava ser atualizada e vivida de modo novo. Portanto, Jesus foi condenado por trair Roma; condenado por ser um revolucionário; condenado por questionar César e a Lei antiga.





Por Dione Afonso  |  jornalista.

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