09 Aug
09Aug

Passados os mais de 5 anos da pandemia da covid-19 que todo o mundo teve que atravessar, ainda hoje ecoa entre nós narrativas que tentam expressar com o máximo de exatidão o que aquele terrível ano causou a nós. Um documentário real aqui, uma história fictícia ali, um e outro tentam exprimir o que sentiram naqueles meses derradeiros em que mais de 200 mil mortes brasileiras em menos de 12 meses chocaram o país. Eventos como este e o 11 de setembro, acabam se tornando um marco registrado, seja nos livros de história ou nos monumentos que são erguidos, ou seja no cinema, em que essas histórias ganham a oportunidade de serem narradas partindo de diversos pontos de vista e de opiniões. 

O brasileiro indicado ao Oscar e vencedor do Globo de Ouro, Wagner Moura, estrela, ao lado de Greta Lee a ficção A Última Casa. Dirigido por Louis Leterrier, o filme da Netflix divide opiniões da crítica e acaba sendo caracterizado como um longa sem profundidade e com diálogos pouco imersivos dentro do dilema que ele se propõe a construir. Moura e Lee protagonizam a história ao lado dos jovens Riley Chung e Emma Ho (ambas dando vida à filha Ruth em duas fases) e de Noah Alexander Sosnowski e Gabriel Barbosa (dando vida ao filho Grahan, também em duas fases). 


Experiência traumática de sobrevivência 

A certa altura da trama, o jovem Graham (Barbosa) afirma que o que eles estão fazendo dentro da própria casa já não se trata mais de vida, mas de sobrevivência. Os dois primeiros atos do filme são muito bons, muito bem construídos, infelizmente a coisa desanda quando parte para o ato final e ali a solução para todo aquele dilema se resume a simples monstros marítimos que de repente desaparecem. As atuações dos quatro membros da família, aprisionados numa casa está harmoniosa. As crianças e depois, jovens sabem se conectar com os adultos e oferecem seus dilemas pessoais. A família, isolada de tudo e de todos, precisa lidar como pouco espaço vital que possuem e fazer daquela casa o ambiente mais seguro que possuem. 

De fato, o roteiro que Matthew Robinson assina poderia ter se aprofundado mais nos temas do isolamento, da claustrofobia, da própria convivência isolada, tudo isto teria oferecido mais corpo narrativo à trama. Ao optar em não abordar tais temas, o filme ficou um pouco raso e tornou-se apenas um terror fraco com uma família que simplesmente se reinventa para sobreviver. Por exemplo: quando o cachorro que toma remédios para um problema de coração morre, Jason (Moura) levanta um tema duro e de difícil maturação, mas, o roteiro nos desvia deste dilema e tudo se resolve fora da câmera. Na nossa opinião, aí teria surgido um ponto relevante para elevar toda a narrativa para um patamar ainda mais desconfortável, mas de essencial urgência. 

Portanto, o filme merece nossa atenção pelas boas atuações que ele nos oferece e pela direção de fotografia que garante uma boa experiência. O roteiro ficou a desejar, bem como a construção de diálogos mais profundos. Diante de tudo isso, no entanto, é uma boa experiência que pode ser conferida em família num confortável sofá diante da sua sala de estar. O que dois adolescentes, prestes a entrar na fase juvenil poderiam fazer sem conexão, sem internet, sem TV e, depois, sem energia elétrica? São bons questionamentos que o filme nos ajuda a extrair reflexões interessantes.




Por Dione Afonso, jornalista.

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