É quase impossível alguém que viveu o auge de sua adolescência ou juventude durante a virada dos anos 2000 que não ouviu falar do fenômeno Harry Potter. Seja alguém que leu, ou quem acompanhou os filmes, ou que pelo menos ouviu falar do nome, a criação da autora britânica J. K. Rowling (1965) influenciou várias gerações. E continua influenciando ainda hoje, pois não há uma loja do ramo do entretenimento que não tenha os produtos – licenciados ou não – da franquia. Harry Potter é um fenômeno mundial. Desde que o primeiro livro ganhou as livrarias (1996), a obra nunca saiu da lista dos mais vendidos e até hoje, trinta anos depois da primeira publicação, ainda segue invicto nesta lista[1]. O que explica tamanho sucesso? Que elementos literários esta obra possui que continua angariando milhares de fãs por todo o mundo? Segundo a Boston College, a cada 30 segundos, alguém no mundo começa a ler um livro de Harry Potter[2].
Entre fãs e haters; entre os apoiadores e os que denunciam a história afirmando ser fruto de plágios – e isso é um tema para outra oportunidade – o fato é que a franquia dos livros, filmes, produtos licenciados, parques temáticos e a futura série de TV continua movimentando bilhões no mercado do entretenimento. Grande parte desse financiamento vai, claro, para a conta bancária de quem foi o responsável por tudo. Neste caso, a própria Rowling. Em 2004 ela foi apontada pela Revista Forbes como a primeira escritora em todo o mundo a se tornar bilionária escrevendo e vendendo livros[3]. Imediatamente, por não se considerar digna do título, a própria Rowling se destituiu do pódio ao doar grande parte de sua fortuna para instituições de caridade. Por outro lado, a autora não está isenta de exemplos que depõe contra sua imagem. Em 2020, num artigo de opinião que tinha no título a expressão “pessoas que menstruam” colocou Rowling dentro de um debate que está longe de encontrar uma solução. Na tentativa de ser inclusiva e de defender certa posição da história, Rowling emitiu em carta aberta[4] a sua opinião a respeito de mulheres trans, o que gerou desconforto à comunidade LGBTQIA + acusando-a de transfobia e excludente.
A socióloga francesa Gisèle Sapiro, em seu livro Peut-on dissocier l’oeuvre de l’auteur (2020) discorre sobre a questão: “podemos separar a obra do autor?”, apresentando alguns legados da história, figuras nacionais de renome, bem como de suas obras. Esse debate é antigo e ele encontra variáveis a cada geração. No século XXI parece que a linha tênue entre autor e obra perde a sua força coletiva e o debate acaba se tornando mais pessoal e mais inflamado. O advento das Redes Sociais e da popularização da internet acaba reforçando o discurso não permitindo que a maturação ganhe espaço para maior reflexão, antes de cair na máxima condenatória. Gera um discurso de ódio que acaba sendo amplificado pela rede social e em poucos segundos o conteúdo viraliza e o autor vê sua carreira encerrada horas após. Hoje, as redes estão cheias de questionamentos como: você vai mesmo assistir a nova série de Harry Potter? Você vai continuar dando palco para uma transfóbica? Ser fã de Harry Potter é ser condizente com as atitudes dela. Vamos boicotar essa série. Vamos cancelar nossa assinatura na HBO. E agora? Que decisão deveríamos tomar?
Ao discorrer sobre a escrita contemporânea, o filósofo Michel Foucault, em conferência, fala sobre a imagem do autor. “O que é o autor?”, interroga ele, e Foucault deixa claro que “quando há certa indiferença sobre essa identidade, perde-se o princípio ético” (Foucault, 2001, p. 264). O que chamamos de cultura do cancelamento, ele chama de o “apagamento do autor”. E, para endossar o debate que levantamos neste texto, para nos ajudar a refletir sobre, Foucault fala de duas relações, a de “apropriação” e a de “atribuição”. Enquanto apropriação, o filósofo defende que não é porque o autor escreveu tal livro, ou textos, que ele é o proprietário deles. e, enquanto atribuição, diz ele que, “mesmo sendo ele a quem se pode atribuir o que foi escrito, esse é o resultado de operações críticas complexas”, e quem manda, é a interpretação do leitor, dentro de seu contexto pessoal.
Sapiro tenta apresentar uma reflexão pertinente recorrendo às estruturas linguísticas. Ao citar o gênero da ficcionalização, ela afirma que “os vínculos entre a personalidade do autor, sua biografia e seus valores são mascarados pelo trabalho de ficção” (Sapiro, 2020, p. 57). Trata-se de uma estratégia de escrita que não responde a todos os questionamentos que levantamos aqui, mas é um caminho reflexivo que pode contribuir a decifrar certas inconsistências que percebemos nesse debate. Harry Potter é puramente uma história de ficção. A história aborda um universo mágico onde bruxos têm a sua vida própria com rotina, escolas, trabalho e família. Não há, nem nos livros e nem nas adaptações qualquer outra referência que se assemelha a algum tipo de personalidade da autora. Em algumas entrevistas ela até menciona certa semelhança com uma das personagens, mas nada aprofundado.
Um dos ensinamentos que a obra nos transmite é a da intolerância diante do ser humano. O fato de humanos odiarem os bruxos, numa interpretação aberta, nos ensina que o outro, mesmo que diferente, pode ser amado e tem o seu direito de viver. Sapiro alerta sobre a “violência simbólica que as obras correm o risco de perpetuar” (Sapiro, 2020, p. 88) e isso afeta negativamente a nossa cultura que busca viver em harmonia, com respeito e dignidade humana. Foucault diz que “o autor é exterior e anterior ao que o seu texto aponta” (Foucault, 2001, p. 267). Tal violência está muito presente hoje, trata-se da “indiferença ética” ressaltada pelo filósofo: “trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não pára de desaparecer”. Não é difícil percebermos como algo é facilmente cancelado pelo público. Seja uma situação, uma pessoa, filme, música, livros… Parece que estamos vivendo uma ditadura cultural onde as frágeis reflexões acabam ditando as regras da vida. Tudo sem maturidade e sem propor uma reflexão mais aprofundada sobre o assunto. Basta olharmos para o que ocorreu com a recente cinebiografia de Michael Jackson, quando o público percebeu que o roteiro do filme não aborda com profundidade os dilemas e escândalos do artista[5]. Na internet, viralizou conteúdos que veiculavam mensagens boicotando o filme, pedindo para que as pessoas não fossem aos cinemas para assistir. No entanto, Michael, dirigido por Antoine Fuqua tornou-se a cinebiografia com a maior bilheteria da história.
Após avançar no discurso e avaliar alguns fatos, Sapiro nos dá algumas saídas: 1. se nenhuma moral foi atingida violentamente, é preciso avaliar a singularidade do autor, separada de sua obra e perceber se há aí autonomia. Se houver, cada lado deve ser apreciado de forma diferente; 2. se a moral do autor está implicitamente associada à obra, esta é passível de censura. Contudo, Sapiro não defende a prática da “cultura do cancelamento”, mas de fomentar um debate público, honesto e dialogável para que o crime praticado seja corrigido. Neste caso, a autora apresenta caminhos que não caem nem no moralismo cego e nem num tipo de universalismo que se alimenta desses púlpitos digitais onde cada um tem sua defesa e que todos parecem ser especialistas no assunto, mas, na verdade, nada é aprofundado, de fato.
Para Foucault, a escrita é um “conjunto de signos” que não se prende a um dono. E esse “jogo” é comandado pelas estruturas interpretativas externas. No caso deste texto, enquanto prendermos Harry Potter à criadora, dificilmente compreenderemos o que esta literatura representa. Sabemos o que a autora defende, mas sua ética não se aplica ao que seus livros narram. “O sujeito que escreve despista todos os signos de sua individualidade particular: a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita” (Foucault, 2001, p. 269). O tema do “desaparecimento do autor” já é comum no campo da filosofia, e, como uma relação que perpetua a morte do autor, desde as epopeias gregas e também na literatura árabe, uma vez que separamos a individualidade da obra de seu autor, não nos é estranho exaltar a obra e não reconhecer aquele que a escreveu.
Portanto, a partir dos dois caminhos que Sapiro nos oferece e a reflexão de Foucault, a resposta a este artigo é “sim” e “não”. Neste caso, entre Harry Potter e J. K. Rowling, é preciso julgar as obras da autora de forma autônoma, avaliando a moralidade de ambos. Julgando a partir destes critérios, valorizamos a produção cultural, não incitaremos os discursos de ódio e, nem tampouco faremos apologia à violência física ou simbólica. Não endossamos a prática da cultura do cancelamento, mas, Foucault afirma que nem sempre o autor absorve todas as consequências de seus atos. Rowling tem uma dívida alta que precisa quitar com a comunidade trans. Se um dia ela vai resolver esse débito, nós não sabemos. Uma coisa é fato: estar do lado dela é comungar com suas ideias. Independentemente de quem você é, ou da crença que você carrega, ou do seu estilo de vida, neste caso, isso não tem como ser separado, pois é a “ética do autor”, separada de seus livros, seus textos e escritos. “É próprio da crítica não destacar as relações da obra com o autor, nem querer reconstituir através dos textos uma experiência” (Foucault, 2001, p. 269). O que ela escreve, seus livros, toda a sua obra vai além dela mesma. É algo que lhe escapa e que abraça outros eventos da cultura e das áreas do conhecimento. E ainda há o elemento da interpretação que muda de um tempo para o outro, de uma geração para outra.
É preciso se questionar: Será que tudo o que ela escreveu reflete suas decisões na vida real? Até onde ela deveria ter ido? De fato, ela deveria ter publicado tudo? Portanto, há responsabilidades aí que precisam ser assumidas. É preciso analisar que significados os livros lhe atribuem e tomar uma decisão diante do que se lê. Proibir as obras, “cancelar” os autores, boicotar bilheterias significa tirar a autonomia de ambos os lados. Da mesma maneira, não estamos dizendo que devemos fechar os olhos e consumir algo que sempre desejou. Muito pelo contrário: se hoje, consumir Harry Potter, independente do produto te faz se sentir mal, é importante que esta decisão tenha surgido de uma reflexão consciente e não de um perturbado que postou nas redes sociais dizendo que quem ama Harry Potter está matando a comunidade trans. Rowling é preconceituosa e transfóbica, mas na mesma balança estão os dados de suas ações a favor de instituições de caridade. Um ato não justifica o outro. Contribuir financeiramente com um país que publica editais que excluem a comunidade LGBTQIA + de participar de decisões político-sociais é um crime! Mas isso não tem nada a ver com seus livros. Eu sou fã de Harry Potter e repudio veemente esta posição da Rowling. Não concordo com a postura dela e torço para que ela assuma suas responsabilidades publicamente e pague pelo crime que está cometendo.
Referências:
Foucault, Michel. (2001). O que é um autor? In: Ditos e escritos: estética - literatura e pintura, música e cinema (v. III). Rio de Janeiro: Forense Universitária, p. 264-298.
Sapiro, Gisèle. (2020). Peut-on dissocier l’œuvre de l’auteur? Paris: Seuil.
[1] FACCHINI, Talita - Não-ficção e fantasia dominam a lista da semana. Disponível em: https://www.publishnews.com.br/materias/2020/05/22/nao-ficcao-e-fantasia-dominam-a-lista-da-semana. 22/05/2020. Acesso em 13 de setembro de 2026.
[2] LUND-WILDE, Jocelyn - A História por trás da Magia de Harry Potter. Disponível em: https://ejournals.bc.edu/index.php/freshink/article/view/1230/1588. s/d. Acesso em 13 de setembro de 2026.
[3] CRAIG, Matt - J.K. Rowling, autora de Harry Potter, volta a atingir o status de bilionária. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2025/05/j-k-rowling-autora-de-harry-potter-volta-a-atingir-o-status-de-bilionaria/. 30/05/2025. Acesso em 13 de setembro de 2026.
[4] ROWLING, J. K. - J. K. Rowling escreve sobre os motivos que a levam a se manifestar sobre questões de sexo e gênero. Disponível em: https://www.jkrowling.com/opinions/j-k-rowling-writes-about-her-reasons-for-speaking-out-on-sex-and-gender-issues/. 10/06/2020. Acesso em 13 de setembro de 2026.
[5] PETTERSEN, Bruno - Podemos separar a obra do artista? Michael Jackson, Kant e a tentação do apagamento. Disponível em: https://faculdadejesuita.edu.br/podemos-separar-a-obra-do-artista-michael-jackson-kant-e-a-tentacao-do-apagamento/. 28/05/2026. Acesso em 13 de setembro de 2026.
Por Dione Afonso, jornalista.
13 de setembro de 2026.